sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A comunicação política no século XXI

As revoluções comunicativas
"Technology is neither good nor bad; nor is it neutral.”
Primeira Lei de Melvin Kranzberg



Na história do desenvolvimento das sociedades humanas, a invenção do alfabeto ocorrida na Grécia por volta do ano 700 a.C., constitui-se num grande salto que possibilitou a construção do discurso conceitual, bases para o desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência. Embora a escrita pictórica já fosse utilizada pelos Sumérios desde 3.300 a.C., o alfabeto, em suas bases fonéticas, dá uma nova dimensão à escrita e, após mais de três mil anos de comunicação oral o homem passava a ter a possibilidade da comunicação cumulativa, baseada no conhecimento.

Avançando para a Idade média, na Europa Ocidental, os monastérios terão o domínio da cultura letrada e, por meio do trabalho exaustivo de copistas, trabalharão na preservação dos textos da antiguidade clássica e na produção de uma cultura eminentemente eclesiástica, voltada ao restritíssimo círculo letrado da época.

A difusão do alfabeto só se dará a partir da invenção dos tipos móveis de Gutenberg em 1450, consolidando a cultura letrada e a comunicação escrita a partir da difusão do livro e do jornal impresso.

Ao analisar a questão da passagem da cultura oral para a cultura escrita, Castells alerta para o fato de que o sistema audiovisual de símbolos e percepções, tão importante para a expressão plena da mente humana é relegado a um segundo plano, mas irá ressurgir no cenário da comunicação humana, se impondo no século XX.

“Ao estabelecer – implícita e explicitamente – uma hierarquia social entre a cultura alfabetizada e a expressão audiovisual, o preço pago pela prática humana do discurso escrito foi relegar o mundo dos sons e imagens aos bastidores das artes, que lidam com o domínio privado das emoções e com o mundo público da liturgia. Sem dúvida, a cultura audiovisual teve a sua revanche histórica no século XX, em primeiro lugar com o filme e o rádio, depois com a televisão, superando a influência da comunicação escrita nos corações e almas da maioria das pessoas.” (CASTELLS: 2005, p. 413)

O advento do cinema, no final do século XIX, das transmissões radiofônicas e da televisão, no início do século XX inaugura o período da chamada cultura de massas, marcada pela reprodução em série da produção cultural, largamente criticada pelos filósofos da chamada Escola de Frankfurt, da qual Theodor Adorno Adorno e Max Horkheimer são máximas expressões. Na obra “Dialética do esclarecimento” Adorno recusa o termo cultura de massa e introduz o conceito de Indústria cultural. Para eles o desenvolvimento da comunicação de massa teve um impacto fundamental sobre a natureza da cultura e da ideologia nas sociedades modernas. A cultura, na visão desses teóricos seria o instrumento que desenvolve e assegura formas de controle das concepções sociais e das ideologias estruturadas na sociedade capitalista. Denunciam acidamente o caráter de mercadoria da cultura, onde o consumidor é levado à ilusão de que é sujeito, mas, ele próprio, é transformado em mercadoria e vendido na forma de índices de audiência para o mercado publicitário.

Na época em que Adorno e Horkheimer formularam suas idéias o Rádio e o Cinema impunham-se como poderosos meios de comunicação de massa. Ao contrário de Walter Benjamin, também pertencente à Escola de Frankfurt, que via no cinema e na possibilidade da reprodutibilidade da obra de arte um fator de esperanças, Adorno nutre na obra uma visão catastrófica.

“...o que nos propusemos era, de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em estado verdadeiramente humano, está se afundando numa nova espécie de barbárie”. (ADORNO: 1991, p.11)

A comunicação na era da sociedade de massas, não faculta ao espectador nada além do que consumir passivamente as mensagens a ele direcionadas pelos meios de comunicação eletrônicos como verdades absolutas, inquestionáveis forjando o axioma “deu na TV, logo, é verdade”.

Na chamada sociedade de massas a política vive a era da “democracia eletrônica” e se espetaculariza, obedecendo pautas, conteúdos e estética dos programas de entretenimento, como ressalta Ianni.

“No âmbito da “democracia eletrônica”, dissolvem-se as fronteiras entre o público e o privado, o mercado e a cultura, o cidadão e o consumidor, o povo e a multidão. Aí o programa televisivo de debate e informação política tende a organizar-se nos moldes do programa de entretenimento... Esse é o clima no qual a política tem sido levada a inserir-se, como espetáculo semelhante a espetáculo dentro do espetáculo”. (IANNI: 2000, p. 153)

Assim, a passividade da sociedade de massas reflete no cotidiano da política e, ao cidadão, não resta nenhum outro papel senão o de votante. Tal como o consumidor, que ao ir às compras vive a ilusão de ser sujeito, já denunciada por Adorno, o eleitor vota e, como assinala Baudrillard, sente-se participante do processo político, transferindo ao outro a responsabilidade da solução dos problemas cotidianos, esvaziando a esfera pública de todo o seu significado.
“Não é por acaso que a publicidade, depois de ter veiculado durante muito tempo um ultimato implícito de tipo econômico, dizendo e repetindo no fundo incansavelmente: ‘compro, consumo, gozo’, repete hoje sob todas as formas: ‘voto, participo, estou presente, isto diz-me respeito’ – espelho de uma zombaria paradoxal, espelho da indiferença de todo o significado público” (BAUDRILLARD: 1981, p. 114)

Hoje, na sociedade moderna, somos a cada instante bombardeados por informações. Ouvimos o rádio ao dirigirmos no caótico trânsito das metrópoles, visualizamos outdoors e anúncios nas fachadas dos edifícios comerciais, assistimos aos noticiários na TV, lemos jornais, livros, revistas e navegamos na web em busca de informações. A profusão de informações que nos rodeiam nunca foi tão acintosamente generosa.

Crítico contundente da sociedade de consumo Baudrillard construiu uma série de teorias sobre os impactos da comunicação e das mídias na sociedade e na cultura contemporâneas. Para ele a saturação de informação na sociedade de consumo, o mundo virtual criado pela mídia, leva ao esvaziamento do real e à falência da comunicação. Este ponto de vista, nada animador, formulado no início da década de 90, é defendido por Baudrillard na obra “Simulacros e Simulações”.

“Em toda parte é suposto que a informação produz uma circulação acelerada do sentido, uma mais-valia de sentido homólogo à mais-valia econômica que provém da rotação acelerada do capital. A informação é dada como criadora de comunicação (...). Somos todos cúmplices deste mito. É o alfa e o ômega da nossa modernidade, sem o qual a credibilidade da nossa organização social se afundaria. Ora o fato é que ela se afunda, e por este mesmo motivo. Pois onde pensamos que a informação produz sentido, é o oposto que se verifica. (...) Assim a informação dissolve o sentido e dissolve o social numa espécie de nebulosa votada, não de todo a um aumento de inovação, mas, muito pelo contrário, à entropia total. Assim, os media são produtores não da socialização, mas do seu contrário, da implosão do social nas massas”. (BAIDRILLARD: 1991, p.104-106)

A obra “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel, escrita em 1513, inaugura o pensamento político moderno e ainda hoje é referência para aqueles que vivenciam a política. Dedicada ao príncipe Lourenço de Médici II, foi concebida pelo autor para servir de subsídio à implantação de uma política de unificação da Itália, tão sonhada por ele. Nela Maquiavel debate o que seriam os principados, relacionando os tipos existentes, como seriam conquistados, mantidos ou perdidos. Fortuna e virtù seriam os principais atributos do príncipe para a consecução dos objetivos do reino.

Em “O príncipe eletrônico”, Ianni parte das teorias de Maquiavel e do pensador italiano Antonio Gramsci sobre o partido político, visto como “intelectual coletivo”, para analisar as implicações decorrentes das transformações ocorridas com o avanço dos meios de comunicação de massa e da globalização. Comparando o príncipe de Maquiavel ao príncipe moderno de Gramsci, Ianni conclui que ambos são análogos no que se refere à capacidade de construir hegemonias.

“Tanto no que se refere a O Príncipe, de Maquiavel como o moderno príncipe, de Gramsci, estão em causa figuras e figurações fundamentais da política. Tudo o que pode ser específico da política neles se polariza, sintetiza ou galvaniza. Nesse sentido é que, em última instância, esses tipos ideais ou arquétipos estão referidos à capacidade de construir hegemonias, simultaneamente à organização, consolidação e desenvolvimento de soberanias”. (IANNI: 2000, p. 142.)

Lançando o olhar crítico para o final do século XX, tendo como referenciais as teorias de Maquiavel e Gramsci, Ianni aponta o envelhecimento dos “príncipes” construídos por aqueles e elabora sua teoria do príncipe eletrônico. Se para Maquiavel, o príncipe é uma pessoa, o líder ou condottiere, capaz de articular inteligentemente suas qualidades de atuação e liderança (virtù), e as condições sociopolíticas (fortuna), e para Gramsci o moderno príncipe é o partido político, para Ianni o príncipe eletrônico será personificado por aquilo que ele classifica como “a indústria de manipulação das consciências”, formada pela grande corporação de mídia e, em especial, a TV.

“O que singulariza a grande corporação da mídia é que ela realiza limpidamente a metamorfose do mercado em ideologia, do mercado em democracia, do consumismo em cidadania. Realiza limpidamente as principais implicações da indústria cultural, combinando a produção e a reprodução cultural com a produção e a reprodução do capital; e operando decisivamente na formação de “mentes” e “corações” em escala global.” (IANNI: 2000, p.152).

Embora em diversas passagens de seu texto Ianni inclua a internet dentre os meios de comunicação, acreditamos que, hoje, passados dez anos da produção do mesmo, os avanços acelerados no que se refere ao desenvolvimento dos chamados meios de comunicação digital impõem uma análise mais atenta daquilo que muitos autores denominam a quarta revolução comunicativa.

Castells nos dá a idéia exata da rapidez com que o meio de comunicação digital têm se disseminado por todo o mundo.

“A Internet tem tido um índice de penetração mais veloz do que qualquer outro meio de comunicação na história: nos Estados Unidos, o rádio demorou 30 anos para chegar a sessenta milhões de pessoas; a TV alcançou esse nível de difusão em 15 anos; a internet o fez em apenas três anos após a criação da teia mundial”. (CASTELLS: 2005, p. 439)

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