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domingo, 29 de novembro de 2009

O Governo de Michelle Bachelet

Bachelet em vista a Casa Branca


Michelle Bachelet, médica pediatra e epidemiologista, assumiu a presidência do Chile no dia 11 de março de 2006, convertendo-se na primeira mulher a assumir a presidência do país. Segundo informações da France Press, repercutidas pelo jornal A Folha de São Paulo, no dia de sua posse, acompanhada pela mãe e seus três filhos, Michelle teve seu primeiro contato direto com os cidadãos da capital Santiago em um emotivo discurso no Palácio de La Moneda, onde recordou seu pai e vários ex-presidentes, desde o conservador Jorge Alessandri ao socialista Salvador Allende, omitindo Pinochet e arrancando acalorados aplausos.

Filha do militar constitucionalista, Alberto Bachelet, preso em 73 e torturado, veio a falecer na prisão em 1974, a exatos 32 anos de sua posse, segundo as autoridades de ataque cardíaco. Bachelet recordou passagens do golpe militar quando também foi presa com sua mãe, a arqueóloga Ángela Jeria, pela DINA, polícia secreta da ditadura, em 1975, torturadas e forçadas a partir para o exílio. Ainda segundo a reportagem, os maiores aplausos foram para Salvador Allende, que se suicidou no La Moneda durante o golpe de 1973 e para Lagos, que deixava o governo com índices de popularidade na casa dos 61%, índices até então sem precedentes para um governante chileno em final de mandato só superado pela sua sucessora.

Ao assumir o governo montou um gabinete de 20 ministros repartindo cargos entre homens e mulheres igualmente, fato nunca ousado em nenhum governo. Seus primeiros meses de mandato são tumultuados, pois teve de enfrentar enormes manifestações estudantis em todo o país por uma reforma educacional e, logo a seguir modificações desastrosas iniciadas no governo Lagos no setor de transportes trouxe caos e descontentamento aos usuários do transporte público, a ponto dela ser retratada em charges pelos órgãos de comunicação impressa como um ônibus indo em direção a um penhasco.

Hoje, restando pouco mais de quatro meses para concluir seu mandato Bachelet ostenta índices de aprovação superior a 76% segundo apurado pelo instituto Adimark Gfk em setembro, graças a seu ousado programa de proteção social voltado às mulheres e crianças, á reforma previdenciária e aos bons frutos de sua política econômica que, apesar da crise econômica mundial coloca o Chile, ao lado do Brasil, em uma posição privilegiada, com a perspectiva de crescimento do PIB chileno da ordem de 5%. Em meio à crise o governo Bachelet criou um programa de ajuda em dinheiro no valor de 60 dólares para mais de dois milhões de chilenos em situação vulnerabilidade econômica. Para se ter uma idéia da abrangência deste programa convém ressaltar que o Chile tem hoje população total de cerca de 15 milhões de habitantes.

Como no Chile não há reeleição imediata concorrem este ano quatro candidatos; o engenheiro democrata cristão, Eduardo Frei Tagle pela Coligação Para a Democracia ou Concertacion, composta por democratas cristãos, sociais-democratas, radicais e socialistas; o economista e empresário Sebastián Piñera, pela Coligação Aliança pelo Chile, de centro-direita composta por conservadores e liberais; o filósofo e cineasta Marco Ominami pela Coligação Nova Maioria para o Chile, composta por ecologistas e humanistas, e Jorge Arrate pela Coligação Juntos Podemos Mais composta por comunistas e outras forças de esquerda.

O Governo de Ricardo Lagos (2000-2006)

Lagos com a faixa presidencial; ao fundo o presidente Lula

As manifestações em apoio ao ex-ditador Pinochet, preso em Londres, organizadas pelos partidos de direita fez emergir afigura do prefeito da comuna de Las Condes, Joaquín Lavín, como alternativa à candidatura do socialista Ricardo Lagos, um dos principais líderes da Concertacion na época do plebiscito. Lagos era Ministro de Obras Públicas do governo Frei e, nas eleições anteriores, já havia apresentado seu nome como pré-candidato à Presidência sem sucesso.

No primeiro turno das eleições presidenciais de 12 de dezembro de 1999, parcela significativa do eleitorado chileno, temeroso em ver se repetir a experiência do governo socialista de Allende, opta por descarregar votos em Lavín. Já outra parcela significativa do eleitorado temerosa em assistir a vitória da direita abandona a candidatura do democrata cristão Andrés Zaldivar e descarrega votos em Lagos que termina o primeiro turno na frente com margem estreita de cerca de 30 mil votos.

Em 16 de janeiro de 2000, Lagos é eleito com 51,3% dos votos graças à estratégia de reconquistar eleitores de centro, perdidos no primeiro turno para Lavín, organizada pela nova coordenadora de campanha e ex-ministra da Justiça de Frei, Soledad Alvear.

Ao assumir o governo em 11 de março de 2000, Lagos terá como desafio dar solução às altas taxas de desemprego, a recessão econômica por que passava o país e a crise no sistema de saúde. Buscando enfrentar a crise, sem sucesso, o governo adentra o ano de 2001 sob intensa pressão das oposições e dos meios de comunicação que denunciam o envolvimento de funcionários do Ministério de Obras Públicas em atos de corrupção.

O desgaste da Concertacion se torna patente com o resultado das eleições parlamentares realizadas no final de 2001, na qual a Aliança pelo Chile consegue agora conquistar grande número de cadeiras, produzindo um equilíbrio de forças no Congresso. Em meados de 2003 a economia chilena dá sinais de recuperação atingindo um crescimento do PIB da ordem de 4%, fruto da conclusão dos acordos comerciais firmado com a União Européia, Estados Unidos e Coréia do Sul, capitaneados pela ministra Soledad Alvear, incrementando novamente as exportações.

O ingresso do Chile no Conselho de Segurança das Nações Unidas à época em que o governo Bush manifestava a intenção de invadir militarmente o Irã causa o incidente das escutas telefônicas de funcionários do governo Lagos pela CIA que pressionava para que o Chile votasse favoravelmente à ação militar. O governo Lagos, em sintonia com a opinião pública chilena posiciona-se no Conselho contra a aventura militar americana.

No ano de 2004 a Bolívia volta a pressionar o Chile, por meio do então presidente Carlos Mesa, que exigia a devolução dos territórios anexados no final do século XIX e que possibilitaria ao país uma saída para o mar. A firmeza de posições de Lagos na defesa dos interesses nacionais e a recuperação econômica repercutem positivamente junto à opinião pública e a aprovação de seu governo volta a crescer atingindo índices em torno de 65%. Contribuem para a popularidade do governo a ação de duas ministras de Lagos, Soledad Alvear, Ministra das Relações Exteriores e Michelle Bachelet que num primeiro momento assume a pasta da Saúde, mas a seguir passa para o Ministério da Defesa Nacional, e sua atuação no ministério garantirá sua indicação como candidata oficial nas eleições presidenciais.

Ao mesmo tempo em que o governo Lagos desfruta de bons índices de aceitação a direita, cerrando fileiras na Aliança pelo Chile sofre pesado desgaste devido ao escândalo da descoberta de uma rede de pedofilia no Chile, conhecido como Caso Spiniak em que políticos da direita estavam envolvidos. O resultado das eleições municipais de 2004 reflete o quadro e a Concertacion obtém uma margem de 10% de vantagem sobre a Aliança pelo Chile na eleição dos Conselheiros.

Com a popularidade em alta, tanto Bachelet como Alvear venceriam Lavin facilmente, o que faz surgir o nome de Sebastián Piñera como candidato pela Renovação Nacional. A mudança no cenário eleitoral faz a candidatura Bachelet, franca favorita à vitória em primeiro turno perder terreno e, aos poucos, a soma dos votos de Lavin e Piñera ultrapassa os da candidata da Concertacion. Ao final do primeiro turno Bachelet obtém 45,95% contra 25,41% de Piñera, 23,22% de Lavín e 5,4% conseguidos pelo candidato da esquerda radical, Tomás Hirsch. No segundo turno Bachelet enfrenta Piñera, em 15 de janeiro de 2006 e consegue a vitória com 53,49% dos votos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Transição para a Democracia

Pinochet e Aylwin em parada militar 1990.

O governo de Patricio Aylwin

Após mais de 15 anos de ditadura militar Patricio Aylwin reinaugura o período de transição democrática no Chile, assumindo seu mandato em 11 de março de 1990.
Embora a Concertacion tenha obtido a maioria das cadeiras para o parlamento, o sistema bicameral e a existência de senadores nomeados impediram-no de levar adiante reformas na Constituição que levassem ao desmonte dos ranços ditatoriais.

Nas administrações locais, conhecidas como comunas, o governo estava ainda nas mãos de pessoas nomeadas pelo governo militar e só foram substituídos dois anos depois, na eleição de 1992 e Pinochet ainda detinha poder e prestígio nas Forças Armadas, mantendo-se como Comandante Chefe. O exército seguia tendo importante força política e, embora estivesse fora do governo pressionou contra algumas medidas adotadas pelo presidente.

Diante desse quadro Aylwin procurou dar passos seguros na construção da democracia, ousando criar a Comissão Nacional de Verdade e Reconciliação que teve como missão investigar a violação dos direitos humanos durante o período do regime militar. Embora as forças armadas tenham manifestado sua desaprovação à criação da comissão os trabalhos seguiram adiante e, em março de 1991 Aywin leva a conhecimento da população, por meio de pronunciamento em rede nacional de televisão, informes sobre as investigações, anunciando medidas reparadoras morais e materiais às famílias das vítimas e, em nome da Nação, pediu perdão pelas atrocidades cometidas.

Buscando criar bases para o desenvolvimento sustentável cria o Ministério de Planificação e Cooperação, e a Comissão Nacional do Meio Ambiente.

Visando minimizar a absoluta pobreza que atingia perto de 40% da população no início de seu mandato, Aylwin dará prioridade à implantação de políticas sociais e, para geri-las cria o Fundo de Solidariedade e Inversão Social. O país experimentava um momento de crescimento econômico advindo do aumento das exportações do cobre e de produtos agrícolas, e aproveitando-se do bom momento econômico propõe mudanças na cobrança de impostos, o que possibilitou o aumento da arrecadação necessária para implantar políticas de redistribuição de renda. Ao final de seu governo a pobreza havia diminuído para 27,5%.

No ano de 1993 foram realizadas novas eleições para presidente da República e para a Câmara dos deputados e metade do Senado. A Democracia cristã em ascensão elege se candidato, Eduardo Frei Ruiz-Tagle, filho de Eduardo Frei Montalva, também Democrata Cristão, com mais de 58% dos votos, o maior índice alcançado nas urnas até então contra somente 24% alcançado pelo candidato da direita da coligação União Pelo Progresso.

Governo de Eduardo Frei Ruiz-Tagle (1994-2000)

Durante os primeiros anos do governo do democrata cristão, Eduardo Frei, o Chile acelera seu desenvolvimento econômico atingindo taxas de 8% ao ano. A abertura de novos mercados internacionais na Ásia a partir da entrada do país na APEC – Asia-Pacific Economic Cooperation –, concorrem para o aumento da atividade econômica. A integração do país ao Nafta e ao MERCOSUL aumenta as exportações para Estados Unidos, Canadá, México e demais países Latino-americanos.

O governo investe pesado na construção de modernas rodovias visando facilitar o escoamento da produção. Todavia, a partir do final de 1995 o país irá sofrer várias catástrofes climáticas, como a seca de 1996 seguida das grandes enchentes do ano seguinte e do terremoto de 1997 causando novo período de estagnação econômica, impondo desgaste ao governo Frei.

Em Londres, no dia 16 de outubro de 1998 o general Pinochet é preso pela Scotland Yard, obedecendo pedido de busca e apreensão internacional expedido pelo Juiz espanhol Baltazar Garzón, por acusação de crimes de genocídio, terrorismo e tortura praticados contra cidadãos espanhóis na época da ditadura militar. Na ocasião Pinochet éra senador vitalício e sequer havia sido julgado por seus crimes, o que abre ondas de manifestações no Chile, organizada por partidos de direita, em apoio ao ex-ditador. Durante sua prisão domiciliar em Londres Pinochet foi visitado pela então primeira ministra britânica, Margaret Thatcher, que o chamou de “um amigo que ajudou a combater o comunismo”.

Após 503 dias de prisão domiciliar, Pinochet é extraditado para o Chile, após a constatação médica de seu grave estado de saúde que o declararam mentalmente incapacitado para enfrentar um julgamento e, devido a isso, teve de renunciar ao cargo de senador vitalício. Em 10 de dezembro de 2006, às 14h15, Pinochet vem a falecer sem nem mesmo ir a julgamento por seus crimes.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A República Presidencial - 1925 / 1938

Marcha em apoio à República Socialista em frente ao Palácio de La Moneda - 4-junho-1932

A República Presidencial

O movimento da oficialidade pelas reformas sociais e pela volta do presidencialismo faz emergir na figura do Militar Carlos Ibáñez del Campo, Ministro da Guerra, um novo homem forte da política Chilena.

Fortunato Alessandri trabalha nos bastidores para o lançamento de candidatura único à presidência, a sua. Mas Carlos Ibáñez desejava o posto de mandatário da república e costura o lançamento de um manifesto assinado por vários políticos apoiando sua candidatura como candidato oficial gerando a renúncia de todos os outros ministros de Alessandri.

A manobra que objetivava pôr fim à pretensão de Ibáñez sai pela culatra, pois este aproveita a situação e redige uma carta aberta ao presidente recomendando que este passasse a emitir decretos desde que com sua assinatura, uma vez que ele era agora o único ministro do gabinete. O Cheque mate não deixa outra saída a Alessandri senão a renúncia e, em 2 de outubro de 1925 nomeia Luiz Barros Borgoño como ministro do interior e deixa a presidência. Os partidos então, como medida de consenso, substituem Borgoño por Emiliano Figueroa que assume a presidência com a missão de solucionar a crise política, mas este não consegue vencer a queda de braço com o Ibáñez e renuncia em abril de 1927. Com a vacância do cargo Ibáñez finalmente consegue seu intento de assumir a presidência do Chile.

Com ampla base popular seu governo consegue inúmeras realizações de vulto como a criação da Controladoria Geral da República, a Força Aérea do Chile, a Companhia Aérea Nacional e o corpo de Carabineiros do Chile. Todavia, devido à sua postura autoritária e centralizadora vai perdendo o apoio popular e dos partidos. Devido às perseguições políticas Alessandri e parte significativa dos políticos da oposição vão para o exílio; a imprensa é censurada e os membros do Congresso passam a serem indicados por Ibáñez.

No plano econômico os reflexos da Grande Depressão de 1929 são sentidos com a drástica diminuição da exportação do salitre, causando o colapso da mineração e das contas públicas devido a empréstimos contraídos pelo governo junto aos Estados Unidos. Os movimentos comunista e anarquista ganhavam força Em 1931 Ibáñez apresenta sua renúncia assumindo em seu lugar o presidente do Senado, Juan Esteban Montero. São convocadas novas eleições na qual se enfrentam Alessandri, que volta do exílio, e Montero, que vence o pleito e, ao assumir, enfrenta diversas tentativas de golpe de estado até que, em 4 de junho de 1932, é deposto por um golpe liderado por Marmaduke Grove, Carlos Dávila e Eugenio Matte que fundam a República Socialista do Chile.

É instalada uma junta de governo presidida pelo general Arturo Puga e composta por Carlos Dávila e Eugenio Matte. Dois dias depois de instalada a República Socialista o Congresso é dissolvido e os prisioneiros políticos do governo anterior são libertados e anistiados. O Partido Comunista do Chile não apóia o golpe e passa a denunciar a suposta tentativa de implantação de uma ditadura nos moldes do Nacional Socialismo. Carlos Dàvila, agora na presidência, passa a ser atacado pela oposição e pelos meios de comunicação e, na noite de 16 de junho de 1932, após uma grande concentração de trabalhadores no Palácio de La Moneda em apoio ao governo, um grupo de oficiais rebela-se e prendem Marmaduque Grove, Secretário da Defesa e Eugenio Matte. Carlos Dàvila proclama-se presidente provisório da Republica Socialista, mas em seguida vê-se obrigado a renunciar devido à falta de apoio popular e dos partidos. Em setembro a República Socialista é dissolvida e são marcadas eleições para Outubro, e Alessandri é novamente eleito presidente.

Em seu segundo mandato Alessandri trabalha pela recuperação econômica e institucional do país conseguindo afastar os militares da política. O cenário político era formado pela coalizão dos partidos Conservador e Liberal, pelo Partido Radical, em franco crescimento, o Partido Socialista, o Partido Comunista e o Partido Nacional Socialista, de inspiração nazi-fascista.

Alessandri inicia o governo compondo um gabinete pluralista, mas logo os Radicais vão se aproximando dos partidos de esquerda e deixam o governo em 1934. Embora consiga aos poucos recuperar a economia a partir da substituição da mineração do salitre pelo cobre e a retomada da produção agrícola a divisão política entre esquerda, direita e radicais produz novos conflitos. As tensões aumentam no campo e nas cidades e, em junho de 1934, explode na província de Malleco uma rebelião de camponeses e índios Mapuches contra os abusos da classe patronal. O governo envia carabineiros para sufocar a revolta com a ordem de não deixar sobreviventes e na ação foram mortos mais de 200 revoltosos. O episódio ficou conhecido como “Massacre de Ranquil”. As tensões aumentam no campo; nas cidades a classe operária, organizada na Confederação de Trabalhadores do Chile combate o governo com greves e manifestações. Em fevereiro de 1936 Alessandri fecha o Congresso e decreta estado de sítio.

Avizinhando-se as eleições os radicais aproximam-se dos socialistas e comunistas formando a Frente Popular lançando como candidato Pedro Aguirre Cerda. A Coalizão dos Conservadores e Liberais lança Gustavo Ross. Já a Aliança Popular Libertadora e o Partido Nacional Socialista lançam a candidatura de Ibáñez. Ross larga como o candidato favorito, mas um acontecimento de última hora mudará o destino do pleito.

Membros da juventude nazista invadem a Casa Central da Universidade do Chile em setembro de 1938 sendo desalojados pela artilharia que prendeu os 71 manifestantes.

Transferidos para o Edifício do Seguro Operário, em frente ao La Moneda, foram sumariamente fuzilados. Após os acontecimentos Ibáñez abre mão da candidatura e dá apoio a Cerda que vence o pleito de outubro com estreita margem de votos. O mandato de Cerda abre o período da história do Chile conhecida como a dos Governos Radicais.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Da República Liberal (1861) à volta do Presidencialismo (1925)


Ataque a Valparaíso em 1891, durante a Guerra Civil chilena

A República Liberal

Em 1861 José Maria Perez é eleito presidente como candidato da aliança Liberal-Conservadora e, em aliança com o Peru, declara guerra contra a Espanha em decorrência da disputa pelas Ilhas Chinca e da presença ostensiva da esquadra espanhola em águas da costa ocidental da América do Sul. Os espanhóis são vencidos em março de 1866 em El Callao. A política expansionista iniciada pelo governo anterior visa agora a região de Antofogasta, rica em salitre e cobre, na época sob jurisdição da Bolívia. A disputa por esse território será a causa da Guerra do Pacífico iniciada em 1879, principal conflito bélico da história do Chile. Com a vitória do Chile sobre o Peru e a Bolívia esta perde a região de Antofogasta, ficando sem saída para o mar e o Peru, completamente arrasado, foi vencido definitivamente na batalha de Huamachuco, perdendo as províncias de Arica, Tacna e Taparacá. A anexação dos territórios, ricos em salitre e nitratos impulsionará o desenvolvimento econômico do Chile.

Durante o governo de Federico Errázuriz Zañartu, que sucede ao de Perez, em 1871, a Aliança Liberal-Conservadora chega ao final com a união do Partido Liberal ao Partido Radical e a Constituição de 1833 é reformada para limitar os poderes presidenciais e o Congresso passa a ter papel mais ativo.

Na eleição de 1886 é eleito o liberal José Manuel Balmaceda que receberá o país em franco desenvolvimento econômico o que possibilitou a seu governo a realização de vultosas obras de modernização da infra-estrutura chilena, com a construção de inúmeras ferrovias por todo o país. Todavia Balmaceda foi angariando inimigos nos partidos e no Congresso devido ao seu perfil fortemente presidencialista e centralizador. Além disso, descontentou boa parte dos exploradores de salitre que eram, sobretudo, capitalistas ingleses que não concordavam com a linha econômica de Balmaceda que insistia em aumentar a produção para exportar mais e os empresários temiam que, com isso, os preços viessem a despencar.

O estopim da crise que levará o país, em 1891, a uma sangrenta guerra civil foi a imposição por parte do presidente de uma Lei que tinha como objetivo abrir caminho para as mudanças econômicas pretendidas. Em primeiro de Janeiro Balmaceda suspende as atividades do Congresso por três meses e impõe a aplicação da chamada “Ley de Presupuestos”. Já no ano anterior Balmaceda e um grupo de militares prepararam um golpe de estado, mas por intervenção da igreja, não se concretizou. Com a suspensão das atividades do Congresso o país se divide e irrompe a Guerra Civil. Enquanto uma parcela do exército declara lealdade ao presidente golpista a Marinha apóia os congressistas. Após algumas batalhas onde os Balmacedistas são derrotados as tropas congressistas conseguem tomar Santiago no final de agosto e, em 19 de setembro Balmaceda, que havia se refugiado na Embaixada da Argentina e era apoiado pelo governo americano, suicida-se. A Guerra civil provocou a morte de mais de 10 mil Chilenos.

A República Parlamentar

Embora o período que se inaugura após a Guerra Civil não seja estritamente parlamentarista, pois lhe faltam mecanismos clássicos desde regime, como a figura do primeiro ministro, é um período em que o Congresso dominará a cena política e os poderes presidenciais serão substancialmente reduzidos em relação ao anterior.

A formação dos gabinetes ministeriais deveriam agora contar com a aprovação do Congresso, que muitas vezes aprovavam a censura a estes e eram imediatamente dissolvidos para serem recompostos o que causava grande rotatividade de ministros e a conseqüente incapacidade de implementar reformas e planos de governo.

Para se ter uma exata idéia da instabilidade dos governos durante este período, tomemos como exemplo o mandato de Gérman Riesco, terceiro presidente após a Guerra civil, que teve nada menos do que 73 ministros e 17 gabinetes em cinco anos, o que corresponde um novo ministério a cada três meses e meio.

O movimento migratório do campo em direção às cidades, acelerado a partir do início do século XX, faz inchar as cidades e submetem a grande massa de migrantes às péssimas condições de vida devido à ausência de postos de trabalho. As subhabitações proliferam e a inexistência água tratada e rede de esgoto facilitam o aparecimento de surtos de varíola e tifo. A mortalidade atinge a cifras alarmantes; em 1909 30 mil pessoas são vitimadas pela varíola e 18 mil por tifo. Nas minas e nas cidades as condições de trabalho eram subumanas; a jornada de trabalho era extenuante e não havia nem mesmo o descanso dominical que só veio a ser instituído em 1907 após as primeiras greves que eram reprimidas com violência, como o episódio do massacre de Santa Maria de Iquique, em 1907, onde centenas de trabalhadores, mulheres e crianças foram assassinadas a rajada de metralhadoras disparadas pelas forças do exército.

O movimento operário dá seus primeiros passos no caminho da organização e são fundados os primeiros sindicatos de trabalhadores e o Partido Trabalhador Socialista em 1912.

A classe média urbana e o nascente movimento operário unem-se em 1920 para eleger o candidato da Aliança Liberal, Arturo Fortunato Alessandri Palma, conhecido como León de Tarapacá. Empossado presidente apresenta ao Congresso um conjunto de Leis que tinham o objetivo de fazer frente às graves questões sociais e encontra na casa forte oposição às reformas pretendidas.

A jovem oficialidade do exército, diante da recusa do Senado em aprovar as reformas manifesta-se e faz soar seus sabres em sessão em que as reformas eram discutidas. O episódio ficou conhecido como o “Ruido de Sables” e foi interpretado como uma clara ameaça de golpe de estado, o que forçou a casa a aprovar as reformas que fixava a jornada de trabalho em 8 horas, limitava o trabalho feminino e infantil, criava o seguro obrigatório contra acidentes de trabalho e os tribunais de conciliação e arbitragem.

Organizados no Comitê Militar a jovem oficialidade aconselha o presidente a dissolver o Congresso. Alessandri percebendo seu enfraquecimento resolve renunciar e exila-se na embaixada dos Estados Unidos e, em 10 de setembro, deixa o país rumo à Itália. O país passa a ser governado por uma Junta de Governo e, em 12 de setembro, as forças armadas dissolvem o Congresso. Em março do ano seguinte Alessandri é chamado pelos militares para terminar seu mandato. Objetivando terminar com o caos que havia se implantado na chamada república parlamentar consegue, através de um plebiscito, promulgar uma nova Constituição que restabelecia o presidencialismo. Em seu governo é criado o Banco Central do Chile.