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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O Governo da Unidade Popular

Bombardeio do Palácio de La Moneda - 11/set/1973.

A via democrática para a construção de uma sociedade socialista era uma experiência nova na história e Allende, que assume a presidência do Chile em 3 de novembro de 1970 irá enfrentar oposição interna dos partidos à direita e boicote e conspiração por parte do governo americano e de poderosas multinacionais como a ITT, a Pepsicola e a Ford.

Seu governo leva adiante a nacionalização das riquezas minerais e aprofunda a reforma agrária. Visando o controle estatal de setores da economia considerados estratégicos ensaia estatizá-las, mas sofre dura resistência dos partidos de direita.

Em represália à nacionalização de empresas americanas que exploravam o cobre e que, por pagarem valores irrisórios de impostos, não receberam indenização o governo americano passa a negar ao governo chileno empréstimos internacionais.

A política de controle da inflação a partir do congelamento de preços e do aumento real nos salários dos trabalhadores consegue, num primeiro momento, bons resultados e o país cresce a uma taxa de 8%, mas logo causa boicote por parte dos produtores e o desabastecimento. Ademais a conjuntura internacional desfavorável advinda da crise mundial do petróleo agrava o quadro para os países em desenvolvimento.

Os enfrentamentos entre partidários e opositores de Allende tornam-se constantes nas principais capitais e iniciam se as manifestações da classe média urbana contra o governo, que ficaram conhecidas como “panelaços”. No campo as disputas pela posse de terras entre agricultores e latifundiários não raro terminavam em conflito armado e mortes. Complicando ainda mais o quadro de instabilidade Fidel Castro visita o Chile e incita a esquerda radical a levar adiante uma revolução popular, caminho oposto ao preconizado por Allende. Nas cidades grupos de direita armados passam a praticar atentados contra oleodutos e centrais elétricas visando estabelecer o caos, preparando o terreno para um golpe militar.

Com o agravamento do quadro Democracia Cristã deixa a Frente Popular e une-se ao Partido Nacional para fazer oposição ao governo. As facções radicais como Movimentam de Esquerda Revolucionária e a Pátria e Liberdade, de extrema direita praticam constantes atentados. A CIA patrocina meios de comunicação greves nos setores fundamentais da economia com o objetivo de desestabilizar o governo.

Nas eleições parlamentares de 1973 a Unidade Popular obtém 43% dos votos e a Confederação pela Democracia 55%. O impasse se aprofunda, pois nem Allende consegue maioria para aprovar as reformas, nem a oposição consegue os dois terços necessários para derrubá-lo.

A quebra de braço entre o poder executivo e o Congresso em torno das reformas propostas leva Allende a convocar um plebiscito objetivando barrar o golpe de estado que se avizinhava desagradando facções mais radicais do governo a ponto de o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) passar a partir daí a chamá-lo de senhor ao invés de companheiro. Sua base de sustentação míngua; conta apenas com o Partido Comunista, o Partido Radical e o Movimento de Ação Popular Unitário, e o Partido Socialista, correntes que defendiam a via pacífica.

Setores da Marinha e da Força Aérea preparavam o golpe liderado pelo vice-almirante José Merino e pelo general Gustavo Leigh. Em 21 de agosto de 1973 o Comandante Chefe das Forças Armadas, Carlos Prats renuncia ao posto e, em seu lugar assume Augusto Pinochet, tido como leal e apolítico, mas que logo serraria fileiras ao lado dos golpistas.

Em 10 de setembro, como estava previsto navios da marinha zarpam para participar de exercícios militares, mas regressam a Valparaíso na manhã seguinte e dão início ao golpe tomando a cidade.

Allende é noticiado do início do golpe por volta das sete da manhã e dirige-se ao La Moneda com um grupo de partidários. Às 8h42, as rádios transmitem a primeira mensagem da Junta Militar exigindo a imediata renúncia do presidente sob ameaça de que, caso isto não ocorresse o La Moneda seria bombardeado.

Allende recusa-se a acatar o ultimato golpista e resolve continuar no Palácio e faz seu último pronunciamento:

"Colocado em uma transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregaremos à consciência de milhares e milhares de chilenos não poderá ser cegada definitivamente. Trabalhadores de minha Pátria! Tenho fé no Chile e em seu destino. Superarão outros homens nesse momento cinza e amargo onde a traição pretende se impor. Sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrirão-se de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor." Salvador Allende, 11 de setembro de 1973
Aviões da Força Aérea bombardeiam o La Moneda às 11h52 e, às 14 horas, os portões são derrubados pelo exército que toma o Palácio. Allende ordena a evacuação, mas recusa-se a se render e segundo o testemunho de seu médico pessoal suicida-se com uma rajada de metralhadora.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Quartelada latino-americana


Para aqueles que esperavam não mais presenciar quarteladas na América Latina o golpe militar desencadeado domingo último em Honduras, que depôs José Manuel Zelaya Rosales eleito democraticamente nas urnas, fez-nos reviver os horrores vividos em grande parte dos países da América Latina durante o século passado.

A fórmula é bem conhecida: um grupo de cerca de 200 militares encapuzados e fortemente armados invadiu no último domingo, 28 de julho ao amanhecer do dia, a residência oficial do presidente metralhando portas, arrancaram-no da cama de pijama e o deportaram para Costa Rica, como relatou Zelaya no exílio para a CNN Chile.

Membro da classe economicamente dominante, filho de latifundiários pecuaristas e do setor madeireiro, Zelaya foi eleito em 2005 pelo Partido Liberal com um programa que priorizava a segurança e um conjunto de ações educativas para reintegrar os jovens das inúmeras gangues das cidades hondurenhas em oposição a proposta de pena de morte defendida por seu oponente.

Desde sua posse Zelaya afastou-se de seu partido e de suas bases no Congresso aproximando-se dos Sindicatos e do movimento indígena ganhando simpatia com sua política de aumento do salário mínimo em mais de 60% durante seu mandato. Em seu governo Honduras aderiu à ALBA – Aliança Bolivariana para as Américas – o que causou no empresariado o medo de que Zelaya realizasse nacionalizações.

O estopim para o golpe foi a proposta de realização de um referendo popular, marcado para o dia do golpe, onde os hondurenhos iriam optar pela inclusão de uma urna nas próximas eleições de novembro para a eleição de uma Constituinte. Embora o referendo tenha sido marcado a partir da coleta de mais de 400 mil assinaturas como exige a Constituição, o Congresso, o comando do exército e a Corte Suprema posicionaram-se contra.

O novo no episódio é a posição assumida pelos Estados Unidos que, de sua histórica postura de artífice e apoador de golpes de estado manteve-se desde a fase das articulações contra a ação golpista. Em entrevista dada ao jornal El Pais dois dias antes do golpe, Zelaya, que havia destituído o Comandante do Exército por boicote ao plebiscito já denunciava as articulações da classe dominante e do alto comando das forças armadas para a realização do golpe e afirmava que só se mantinha no poder graças ao apoio dos EUA. É importante lembrar que Honduras na década de 80 foi, graças ao treinamento e financiamento americano, a principal base contra revolucionária na luta contra o Sandinismo na Nicarágua.

O Congresso fez ler uma falsa carta renúncia de Zelaya e empossou como interino o presidente da casa, Roberto Micheletti que para conter os protestos populares decretou toque de recolher e suspensão das garantias constitucionais.

O Episódio nos faz lembrar o fracassado golpe contra Hugo Chaves em 2002 magistralmente registrado pelos cineastas Kim Bartley e Donnacha O'Briain no documentário A Revolução não será televisionada. Na época a população Venezuelana tomou as ruas e forçou os golpistas a restituírem o poder usurpado a quem de direito o havia conquistado nas urnas.

Sinal dos novos tempos, a OEA, a ONU e muitos chefes de estado, e dentre este Lula, tem feito coro aos Estados Unidos na condenação da aventura golpista, exigindo a volta imediata ao estado de direito e a devolução do cargo a Zelaya.

Que vença a democracia e o sonho sobre o medo e a truculência antidemocrática.