segunda-feira, 12 de outubro de 2009

REDES SOCIAIS DIGITAIS E AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NO CHILE EM 2009



A POLÍTICA NA ERA DO E-MARKETING 2.0

Atualmente, no Chile, seis políticos lançaram oficialmente suas candidaturas para as próximas eleições presidenciais que ocorrerão em 13 de dezembro próximo e, todos eles à sua maneira, vêm procurando ocupar espaço nas chamadas redes sociais digitais objetivando conquistar a preferência do eleitorado. E não poderia ser diferente, uma vez que a vitória de Barak Hussein Obama inseriu a ação político-eleitoral na era do e-marketing 2.0 constituindo-se um marco significativo na história, não só dos Estados Unidos, país que por mais de três séculos carregou a mancha da segregação racial, mas também nos processos de comunicação global e na forma de se fazer política.0

Sua equipe ousou inovar lançando mão de instrumentos e canais de comunicação até então muito pouco utilizados em campanhas eleitorais. Logo de início o candidato abriu mão do financiamento público de campanha, um dinheiro fácil vindo dos cofres públicos, para arriscar-se na captação de fundos via internet. A estratégia provou ser acertada, uma vez que o volume de recursos captados atingiu a cifra de mais de 600 bilhões de dólares em doações online. Isto contra pouco mais de 84 milhões a que o candidato republicano John McCain dispunha como teto de gastos por ter aceitado o financiamento público.

Obama centrou esforços nos pequenos doadores, e estes eram cativados via interação na rede digital. A vitória do democrata não foi somente uma questão de mais recursos. Atingiu-se está cifra astronômica graças à política de e-marketing 2.0, carro chefe da campanha de Obama, e isto em um momento em que os usuários da rede clamam por interatividade.

Antes mesmo de definido o candidato do partido as ações de e-marketing de Obama já chamavam a atenção de analistas políticos e especialistas em redes sociais digitais. Inácio Rodrigo de Castro, especialista e TI apontava, pouco antes do fechamento das previas partidárias, em seu blog:

“Até agora ninguém pode afirmar qual candidato vencerá as prévias que definem os candidatos oficiais de Democratas e Republicanos nos Estados Unidos. Porem, o marketing e o e-marketing adotado pela equipe de Barack Obama já merece grande destaque. A “campanha e-marketing 2.0” realizada pelo candidato Barack Obama é fantástica e inovadora no marketing político no mundo. Se a eleição fosse através da net, provavelmente o candidato Barack Obama, que tem dado muito trabalho a ex-primeira dama Hillary Clinton, já estaria eleito como presidente dos Estados Unidos”.

http://inaciorodrigodecastro.com.br/blog-barack-obama-inacio-rodrigo-de-castro acesso em 15/08/2008 - 21h18.


As estratégias na rede foram entregues a Chris Hughes, co-fundador da rede social Facebook, com larga experiência em interatividade. Hughes foi o idealizador do MyBarackObama.com, a plataforma de rede social que centralizou as atividades da campanha online, também chamada de MyBO. A presença na rede foi arrasadora. Por onde se navegasse haveria à disposição conteúdos produzidos tanto pela campanha como por iniciativas individuais. Pela rede circularam desde e-mail com convites para a participação das mais diversas atividades de campanha, pedidos de doações, mensagens do candidato, links para vídeos, músicas, relatos de campanha. Quem desejasse poderia criar na rede social digital MyBO um blog pessoal personalizável de apoio à candidatura onde se poderia participar de várias atividades on-line com o candidato. Mais de 35 mil blogs de apoio a Obama foram criados.

Um milhão de pessoas se tornaram assinantes do sistema de envio de mensagens pelo celular, 200 mil eventos foram planejados, 400 mil posts escritos e mais de 35 mil grupos foram criados por meio da rede MyBarackObama.

A presença maciça nas redes sociais digitais foi uma estratégia de campanha rendeu preciosos frutos. Com baixo custo foi possível atingir um número altamente significativo de adesões, sempre segmentando as ações. Obama fez-se presente em todas as principais redes: Facebook, YouTube, Flickr, MySpace, Digg, Eventful, Twitter, Linkedin, AsianAve para levar sua mensagem aos descendentes de asiáticos, BlackPlanet, Glee, Faithbase, MiGente e Batanga para falar aos latinos e o Eons para os nascidos entre 1946 e 1964, os famosos baby boomers. A estratégia de segmentar a mensagem para atingir públicos específicos respeitou ainda as linguagens, gostos e problemáticas de cada público. Nestas comunidades conteúdos produzidos por simpatizantes tomaram a rede e multiplicaram-se. Exemplo disto foi o vídeo "Yes, we can" produzido pelo Will.i.am baseado em um discurso de Obama. O vídeo fez tanto sucesso que ganhou um site próprio, o www.dipdive.com. Outro exemplo foi a canção Vote for Hope, feita pelo MC Yogi que, em pouco tempo, tornou-se sucesso e foi tocada nas rádios de vários países inclusive no Brasil.
Além das comunidades virtuais segmentadas buscando atingir públicos específicos a campanha oferecia aos internautas uma loja virtual onde eram vendidos os mais variados produtos, todos eles de muito bom gosto.

A campanha conseguiu fazer do candidato democrata uma grife, uma lovemark e o mercado passou a oferecer tênis, camisetas, sacolas, roupa para cachorro, canecas, e até calcinhas com a marca da campanha, vendidas no Cafepress, uma loja virtual de produtos variados. Como estratégia sagaz de ataque papel higiênico com os rostos estampados de McCAin e Bush foram postos à venda.

Outra iniciativa da campanha foi disponibilizar no site do candidato ringtones e wallpaper para celulares. Até mesmo um aplicativo para smartfone foi desenvolvido visando atrair para a campanha de Obama os usuários.

Com planejamento e sagacidade sua equipe usou e abusou da interatividade dos novos meios de comunicação para aproximar o candidato do seu eleitorado potencial.
“Obama, em um de seus comícios no Central Park em Nova York depois de um discurso empolgante, convocou os presentes a se juntarem à campanha. Como? Resumindo a história, gritou em alto e bom som algo como: “peguem seus celulares agora, digitem “Join” e enviem o SMS para o número X”. Feito. Isso foi o bastante para que os presentes se conectassem a campanha através do mais “íntimo” dos seus aparelhos. E foi também o adeus definitivo às velhinhas voluntárias que recolhem assinaturas no bom e velho papel, ao lado do palanque."
http://inaciorodrigodecastro.com.br/blog-barack-obama-inacio-rodrigo-de-castro acesso em 15/08/2008 - 21h18.


Esta comunicação dirigida, feita aos milhares e milhares, mas por meio de uma tecnologia que permite não somente transmitir mensagens no velho esquema emissor/receptor como na comunicação eletrônica, mas privilegiando a interatividade das redes sociais digitais, produziu conteúdos desvinculados das grandes corporações da mídia (TV e jornais).

Aí reside a força da estratégia vitoriosa de Obama que ousou fincar os dois pés no século XXI, onde, segundo FELICE, “a humanidade estaria enfrentando uma ulterior revolução comunicativa, implementada pelas tecnologias digitais, que, numa concepção histórica, constituiria a quarta revolução e que, como as outras, estaria ocasionando importantes transformações no interior dos distintos aspectos do convívio humano.”(FELICE, 2008, p.22).

Com maestria a campanha de Obama soube lançar mão do que há de mais atual em termos de comunicação digital, privilegiando a interatividade, a liberdade de expressão e a participação democrática, inaugurando uma nova era na comunicação política e eleitoral.

Nos próximos dos meses nossa reflexão terá como objeto as ações de campanha dos candidatos à presidência no Chile no que se refere à utilização dos recursos do e-marketing 2.0, tema de meu trabalho de conclusão do curso de especialização em Marketing político e propaganda eleitoreal na Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo.

Buscaremos avaliar em que medida as inovações implementadas a partir da campanha americana se farão presentes nas ações dos candidatos chilenos no que se refere à captação de recursos, comprometimento e mobilização do eleitor, criação de canais de expressão para manifestação de opinião e ainda como enfrentarão a enxurrada de conteúdos produzidos pelos cidadãos comuns nas redes sociais digitais com o objetivo de ataque. Estes, quase sempre postados no site Youtube, batem recordes de exibição e, muitas vezes tem o poder de causar severos estragos.

É importante ressaltar que no Chile, segundo dados do comScore de junho de 2007, a taxa de penetração no que se refere ao número de internautas em relação ao conjunto da população é de 45%, a maior dentre os países da América Latina, e segundo estudo realizado pela Everis, consultoria multinacional de negócios e tecnologia da informação, em parceria com a Escola de Negócios da Universidade de Navarra (IESE Business School), em 2008, 97,5% de suas conexões são feitas por banda larga.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Quartelada latino-americana


Para aqueles que esperavam não mais presenciar quarteladas na América Latina o golpe militar desencadeado domingo último em Honduras, que depôs José Manuel Zelaya Rosales eleito democraticamente nas urnas, fez-nos reviver os horrores vividos em grande parte dos países da América Latina durante o século passado.

A fórmula é bem conhecida: um grupo de cerca de 200 militares encapuzados e fortemente armados invadiu no último domingo, 28 de julho ao amanhecer do dia, a residência oficial do presidente metralhando portas, arrancaram-no da cama de pijama e o deportaram para Costa Rica, como relatou Zelaya no exílio para a CNN Chile.

Membro da classe economicamente dominante, filho de latifundiários pecuaristas e do setor madeireiro, Zelaya foi eleito em 2005 pelo Partido Liberal com um programa que priorizava a segurança e um conjunto de ações educativas para reintegrar os jovens das inúmeras gangues das cidades hondurenhas em oposição a proposta de pena de morte defendida por seu oponente.

Desde sua posse Zelaya afastou-se de seu partido e de suas bases no Congresso aproximando-se dos Sindicatos e do movimento indígena ganhando simpatia com sua política de aumento do salário mínimo em mais de 60% durante seu mandato. Em seu governo Honduras aderiu à ALBA – Aliança Bolivariana para as Américas – o que causou no empresariado o medo de que Zelaya realizasse nacionalizações.

O estopim para o golpe foi a proposta de realização de um referendo popular, marcado para o dia do golpe, onde os hondurenhos iriam optar pela inclusão de uma urna nas próximas eleições de novembro para a eleição de uma Constituinte. Embora o referendo tenha sido marcado a partir da coleta de mais de 400 mil assinaturas como exige a Constituição, o Congresso, o comando do exército e a Corte Suprema posicionaram-se contra.

O novo no episódio é a posição assumida pelos Estados Unidos que, de sua histórica postura de artífice e apoador de golpes de estado manteve-se desde a fase das articulações contra a ação golpista. Em entrevista dada ao jornal El Pais dois dias antes do golpe, Zelaya, que havia destituído o Comandante do Exército por boicote ao plebiscito já denunciava as articulações da classe dominante e do alto comando das forças armadas para a realização do golpe e afirmava que só se mantinha no poder graças ao apoio dos EUA. É importante lembrar que Honduras na década de 80 foi, graças ao treinamento e financiamento americano, a principal base contra revolucionária na luta contra o Sandinismo na Nicarágua.

O Congresso fez ler uma falsa carta renúncia de Zelaya e empossou como interino o presidente da casa, Roberto Micheletti que para conter os protestos populares decretou toque de recolher e suspensão das garantias constitucionais.

O Episódio nos faz lembrar o fracassado golpe contra Hugo Chaves em 2002 magistralmente registrado pelos cineastas Kim Bartley e Donnacha O'Briain no documentário A Revolução não será televisionada. Na época a população Venezuelana tomou as ruas e forçou os golpistas a restituírem o poder usurpado a quem de direito o havia conquistado nas urnas.

Sinal dos novos tempos, a OEA, a ONU e muitos chefes de estado, e dentre este Lula, tem feito coro aos Estados Unidos na condenação da aventura golpista, exigindo a volta imediata ao estado de direito e a devolução do cargo a Zelaya.

Que vença a democracia e o sonho sobre o medo e a truculência antidemocrática.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Dilma cresce significativamente



 

A 97ª Pesquisa CNT/Sensus divulgada no dia 1º deste mês indicou acertos na estratégia de exposição da candidata do planalto, Dilma Rousseff que apresentou crescimento significativo no índice de intenção espontânea de voto. Dilma soma agora 5,4% e está tecnicamente empatada com José Serra que obteve 5,7%. Como era de se esperar, a grande maioria dos eleitores ainda não tem candidato "na ponta da língua"; 58,6% declararam-se sem candidato.

Lula, embora não seja candidato, aparece como o mais citado com 26,2%. O índice reflete a alta popularidade do presidente que voltou a subir e soma agora 81,5% de aprovação pessoal. Em março este índice era de 76,2%. A aprovação do governo também voltou a subir e apresentou índice de 69,8% de aprovação contra 5,8% de avaliação negativa. Em março eram 62,4% de aprovação contra 7,6% de descontentamento.

Os altos índices de aprovação de Lula e de seu governo, aliada a uma estratégia acertada de exposição, fez com que a candidatura Dilma crescesse significativamente também nos índices estimulados de intenção de voto (23,5%) ocupando já a segunda posição no cenário em que Serra (40,4%) aparece como o candidato do PSDB.

No cenário em que Aécio Neves aparece como o candidato do PSDB, Dilma assume o primeiro lugar obtendo 27,8% contra 18,8% de Aécio. O estudo, realizado entre os dias 25 e 29 de maio último ouviu 2 mil eleitores em 136 municípios do Brasil possui margem de erro de 3%. Foram apresentados aos entrevistados cinco cenários para o primeiro turno e quatro para o segundo turno.

O governador de São Paulo somava, em setembro do ano passado, 38,1% de intenção estimulada de voto no cenário em que eram apresentados como candidatos Dilma, Heloisa Helena e Ciro Gomes. Dilma ostentava minguados 8,4%. Em oito meses o índice de intenção de voto da candidata do planalto teve um crescimento da ordem de 265%. Já a candidatura Serra estagnou como demonstram os números da pesquisa expostos no quadro abaixo.

PRESIDENTE 2010 – 1º TURNO

CANDIDATOS

SET 08

MAI 09

VARIAÇÃO

José Serra

38,1

38,8

1,018%

Dilma Rousseff

8,4

22,3

2,654%

Heloísa Helena

9,9

10,3

1,040%

Ciro Gomes

17,4

9,0

0,517%

Nenhum/Branco/Nulo

13,1

11,2

0,855%

NS/NR

13,2

8,6

0,651%

        

    No último programa eleitoral do partido dos trabalhadores e, sobretudo nos spots de 30 segundos veiculados durante a programação normal, Dilma é destaque. A criação e roteiro são de Chico Cavalcante e Vera Paoloni (Produtora Makro vídeo). Bem elaborados e perseguindo objetivos estratégicos claros, precisos, as peças buscam estabelecer o diferencial entre o governo Lula e seus antecessores (leia-se FHC), transferir a credibilidade de um governo otimamente avaliado para a candidata e firmar o compromisso de continuidade das mudanças e conquistas alcançadas pelo governo Lula. Em ambas as peças veiculadas Dilma, em seu novo visual, mais feminina e menos dura, encerra com a fala "Esse é o nosso compromisso, essa é a nossa diferença". Confiram nos links http://www.youtube.com/watch?v=B2D9XEyPoSw

http://www.youtube.com/watch?v=LqQrky0B81o

    A divulgação dos números tem gerado manifestações tanto na ala petista como na oposição. Hoje a jornalista da Folha de São Paulo, Renata Lo Prete, fez publicar na coluna que assina, declaração do deputado federal Vic Pires (DEM-PA): "Do jeito que a Dilma está crescendo, logo logo o Serra será Aécio desde criancinha."

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Morte anunciada

Como já era previsto a pressão dos pequenos e médios e partidos da base de sustentação de Lula, que fatalmente perderiam seu já exíguo espaço na vida política nacional com a instituição do voto em lista fechada, venceram a queda de braço com o planalto enterrando a proposta de reforma política apresentada por Ibsen Pinheiro (PMDB-RS).
A partir de um acordo de lideranças, PT e PMDB optaram por “preservar a unidade” do bloco governista abandonando a proposta patrocinada pelo planalto.
Na sessão plenária de ontem (26-05) o que se viu foi cena inusitada. A oposição fez uso da tribuna para, nas falas de Ronaldo Caiado (DEM) José Anibal (PSDB), Fernando Coruja (PPS) e Ivan Valente (PSOL) defender e cobrar a votação da proposta.
Enquanto a oposição defendia a proposta do planalto os líderes dos partidos de sustentação do governo calaram-se e negaram assinatura no requerimento de pedido de urgência para a votação da matéria; defendem agora a proposta de José Genoíno de convocação de Constituinte unicameral dedicada exclusivamente à reforma política para 2011.
Genoíno tem visitado municípios debatendo sua proposta e estará amanhã, (28-o5) na Câmara Municipal de Mauá, município do grande ABC.
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terça-feira, 19 de maio de 2009

A democracia que queremos



O Congresso vem retomando as discussões sobre a reforma política e, com o aval do Planalto, PT, PMDB, DEM, PPS, PC do B e parcela do PSDB vem apoiando a proposta sistematizada pelo deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) que prevê o financiamento público de campanha e a instituição do voto em lista fechada para os cargos legislativos.
A proposta em questão necessitará de maioria simples para ser aprovada, pois não altera a fórmula eleitoral –sistema de distribuição de cadeiras estabelecido no art. 45 da Constituição–, o que implicaria na aprovação de emenda constitucional e necessitaria de três quintos dos votos das duas casas em duas votações. Assim, corremos o risco de ver essa proposta ser aprovada já para as eleições do próximo ano, sem que haja uma discussão mais aprofundada da sociedade civil e do próprio Congresso sobre qual a democracia que queremos.
Para entender melhor a questão convém lembrar que, no Brasil, vigora a votação em lista aberta, ou seja, partidos e/ou coligações apresentam uma lista de candidatos e o eleitor vota no de sua preferência. Além do Brasil, Chile, Peru, Finlândia e Polônia usam a lista aberta para comporem as casas legislativas.
Quanto ao cálculo de distribuição de cadeiras são utilizadas hoje no Brasil duas fórmulas: a chamada "Quota Hare" ou quociente eleitoral, onde o número de votos válidos é dividido pelo número de cadeiras. Cada vez que um partido atinge a quota elege um representante. O quociente eleitoral funciona no Brasil como cláusula de exclusão, pois o partido que não atingir o número mínimo de votos expresso pelo quociente eleitoral estará fora do legislativo. As cadeiras não preenchidas pelo quociente eleitoral são distribuídas pela chamada fórmula D'Hondt ou das maiores médias. Esta fórmula é aplicada em países como Bélgica, Bulgária, Chile, Dinamarca, Israel, Polônia e Suécia, mas as cadeiras obtidas por uma dada coligação são redistribuídas proporcionalmente à votação de cada partido que a compõe, o que no Brasil não ocorre, causando graves distorções a ponto de partidos com menos votos que outros elegem representantes.
Os críticos do atual sistema eleitoral em uso no país argumentam que as listas abertas personalizam a conquista do voto em detrimento do fortalecimento dos partidos, incentivam a competição entre candidatos de um mesmo partido, elevam consideravelmente os custos das campanhas e a utilização do caixa2 e ainda incentivam o fisiologismo e a proliferação dos chamados partidos de aluguel. Os defensores, por sua vez, apontam a maior liberdade de escolha por parte do eleitor e a maior margem para renovação de lideranças políticas.
Já as listas fechadas são criticadas por reduzirem a margem de escolha do eleitor e distanciarem estes dos eleitos e ainda serem responsáveis por criarem oligarquias parlamentares pelo fato de os detentores de mandato terem precedência na composição da lista partidária, além de darem poderes irrestritos aos "caciques" das legendas para elaborarem as listas. Como defesa são apontados o fortalecimento dos partidos, o fim das disputas entre candidatos de uma mesma agremiação e a escolha do eleitor em bases programáticas e não personalista. Para estes ainda a adoção das listas fechadas possibilitaria o financiamento público de campanha defendida na proposta no Congresso. Seus defensores vêem na proposta o fim do caixa dois uma vez que as campanhas seriam exclusivamente financiadas com dinheiro público sendo vedada a contribuição de pessoas físicas ou jurídicas.
O atual sistema eleitoral praticado no país para escolha das casas legislativas, segundo os modelos de classificação do cientista político Arend Lijphart na obra "Modelos de Democracia" é o proporcional. Por este modelo busca-se assegurar a representação de todas as correntes de opinião existentes na sociedade de acordo com a performance as urnas. Também conhecido como modelo consensual de democracia tem como características a existência de grande número de partidos, estados federativos e descentralizados e equilíbrio entre os poderes legislativo e executivo. Sua principal virtude é a de assegurar voz e voto às principais correntes de opinião e minorias nas casas legislativas.
Outro modelo seria o majoritário, também conhecido como "Westminster". Teve origem no parlamento inglês e é o modelo praticado nos Estados Unidos e, por este modelo assegura-se a eleição do candidato mais votado em escrutínio de maioria simples geralmente em distritos – unidade territorial. A fórmula gera grandes distorções, pois são comuns situações em que, em um dado distrito, o candidato mais votado soma 35% dos votos e é eleito, ao passo que os outros 65% do eleitorado não se fará representar no legislativo. Este modelo tem como principais características o voto distrital, o predomínio do poder executivo sobre o legislativo, a existência de poucos partidos e a concentração do poder. Sua principal virtude é assegurar maior governabilidade aos governos.
Já no sistema eleitoral misto praticado na Alemanha o eleitor vota duas vezes, uma em um candidato em seu distrito e outra em um partido que apresenta uma lista fechada de candidatos. Metade das cadeiras são preenchidas pelo voto majoritário e metade pelo sistema proporcional visando corrigir as distorções apontadas para os votos distritais.
Outro modelo seria o de lista flexível, onde o eleitor, se assim o desejar, pode alterar a ordem dos candidatos na lista como é o caso de países como na Noruega, Áustria e Suécia, ou ainda assinalar o candidato de sua preferência, como na Dinamarca, Grécia, Bélgica e Holanda.
Há ainda o sistema praticado na Suíça denominado lista livre onde o eleitor vota em um, em vários, em vários de vários partidos, tendo como limite o número de cadeiras em jogo na disputa.
Estes são, em linhas gerais, os vários modelos de representação praticados nas democracias pelo mundo. O que é certo é que não existe um modelo ideal, pois cada um deles apresenta problemas, por sua complexidade e ou por suas distorções em assegurar com que a vontade e as posições dos eleitores sejam convertidas em cadeiras no legislativo.
Uma coisa é certa: o perfil e a performance dos legislativos no Brasil indicam que mudanças são necessárias e urgentes. De nossa parte acreditamos que, mais uma vez a bandeira das reformas políticas é levantada pelo congresso, mais para impor uma agenda positiva e desviar o foco dos escândalos do que para a discussão e implementação da democracia que queremos. Acreditamos que, por hora, fica tudo como dantes no quartel de Abrantes.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Planejamento estratégico em campanha eleitoral


O êxito de uma campanha eleitoral dependerá, em grande parte, de seu grau de organização, motivação e de sua capacidade em saber identificar o "clamor das ruas" e oferecer respostas a ele, através da ação planejada e da comunicação ágil, clara e persuasiva que consiga tocar o coração e a mente do eleitorado.

Organizar uma campanha não é tarefa que dispense a visão do especialista. O Marketing eleitoral tem demonstrado ser ferramenta preciosa na conquista da vitória nas urnas.

Toda ação de marketing, seja ela eleitoral, política ou empresarial sustenta-se no planejamento estratégico. Estratégia é um termo que vem do grego arcaico "strategia" e significa "a arte do general".

Para o filólogo Houaiss estratégia é conceituada como "Arte de aplicar com eficácia os recursos de que se dispõe ou de explorar as condições favoráveis de que porventura se desfrute, visando ao alcance de determinados objetivos".

Em campanha eleitoral os recursos podem ser de três ordens, a saber:

  1. Recursos humanos, composto pelo comitê diretivo da campanha, o comitê financeiro, publicitários, jornalistas, assessores jurídicos, produtores, técnicos e a tropa.
  2. Recursos materiais, composto pelo capital, imóveis para instalação dos comitês, peças publicitárias impressas e eletrônicas, pesquisas qualitativas e quantitativas, estrutura para comícios, frota para locomoção e transporte, etc.
  3. Recursos imateriais, compostos pelos planos de ação (táticos e estratégicos).

    "A realidade é como é; não como gostaríamos que ela fosse"
    Maquiavel

Informação é a base do planejamento estratégico e é por meio da análise acurada do cenário em que se dará a disputa que serão definidas as vantagens e desvantagens competitivas, o posicionamento da candidatura e as táticas a serem utilizadas na conquista dos eleitores.

Tal qual o general em uma guerra será necessário conhecer profundamente do terreno, as qualidades e defeitos do exército adversário e as nossas. Por isso devemos zelar pela qualidade das informações que serão analisadas. Planejar com base em informações imprecisas, erradas, leva a um final desastroso. Melhor navegar sem bússola a uma que não aponte para o norte verdadeiro.

Planejamento estratégico em campanha eleitoral segue a mesma trilha do planejamento de marketing empresarial apontados por Kotler: PM (Pesquisas de Mercado), SDP (Segmentação, Definição de Público-Alvo e Posicionamento), A (Análise da situação - SWOT), MM (Mix de Marketing – 4 Ps), I (Implementação), C (Controle – Feedback, Revisão e Redefinição).

O planejamento em campanha eleitoral deverá abranger três níveis complementares, a saber: o estratégico, o tático e o operacional.

Num primeiro momento buscamos informações junto a órgãos como IBGE, TCE e TCU, TSE e outros, compilando dados dos censos econômicos e demográficos, os resultados de eleições passadas, a evolução do eleitorado, as análises de contas públicas, notícias veiculadas pela imprensa, etc. Estas informações darão início à constituição de um banco de dados que será de grande valia para entender o cenário em que se dará a "batalha das urnas". E não basta compilá-las; será necessário sistematizá-las e interpretá-las e, para isso, a utilização de ferramentas e técnicas da tecnologia de informação (TI) será decisiva.

Após esta fase são elaboradas pesquisas quantitativas e qualitativas para a composição do grande cenário em que se dará a disputa.

Duda Mendonça, um dos grandes consultores de campanhas eleitorais no Brasil defende em sua obra "Casos e Coisas":

"É por isso que nunca pego uma campanha sem antes fazer o que chamamos 'diagnóstico'. É um grande dossiê... Nesse diagnóstico – à luz de pesquisas quantitativas e qualitativas, entrevistas de profundidades, análises de situação política, quadros comparativos com nossos principais adversários -, chegamos às primeiras conclusões."

Nesta fase do planejamento são muito utilizadas as técnicas do questionário estruturado. Esta técnica quantitativa, que mescla perguntas abertas e fechadas serve para avaliar o grau de satisfação e insatisfação em relação aos serviços prestados pela administração (no caso das campanhas majoritárias) ou do mandato parlamentar, preocupações, desejos, valores e expectativas dos eleitores em relação ao futuro, avaliação do grau de conhecimento dos prováveis candidatos, atributos positivos e negativos, perfil do candidato ideal, lembrança do voto nas eleições passadas, intenção de voto, rejeição e as motivações do voto e da rejeição de cada candidato.

Convêm lembrar que as pesquisas quantitativas medem a presença de uma dada qualidade e é expressa em números que podem ser referenciadas ao conjunto dos eleitores (universo da pesquisa); possuem elevada representatividade estatística e baixa profundidade.

As pesquisas qualitativas, por sua vez, objetivam interpretar, à luz da psicanálise, e de técnicas cognitivas e associativas, as razões profundas de determinadas posições assumidas pelos eleitores. Buscam
compreender, em profundidade, os critérios utilizados pelo eleitor para a escolha e definição do voto e são ferramentas fundamentais para a escolha do conteúdo a ser defendido (o que falar) e da forma (como falar). Embora possuam baixa representatividade estatística, trazem à tona o que passa na cabeça do eleitor, chave para o posicionamento eficaz de uma candidatura.

Os grupos focais e as entrevistas em profundidade são as técnicas utilizadas nas sondagens qualitativas para trazerem à tona percepções que povoam a mente do eleitor, alicerce do posicionamento eficaz de qualquer candidatura que se pretenda competitiva.

"A verdade é irrelevante. O que importa são as percepções que existem na mente. A essência da idéia de posicionamento consiste em aceitar as percepções como realidade e então reestruturar essas percepções a fim de criar a posição que você deseja", alertam Al Ries e Jack Trout.

"Não há fatos, só interpretações"

Nietzsche

Coleta de informações, análise e interpretação dos dados, busca de novas informações... Este movimento circular, semelhante ao da construção de uma mola, imprime força e precisão ao planejamento de uma campanha.

Conhecer a mente do eleitor é fundamental como ressaltam Al Ries e Jack Trout:

"Quando você desejar comunicar as vantagens de um candidato a um cargo político ou de um produto ou mesmo de sua pessoa, você precisa revirar as coisas ao avesso... Você procura a solução do seu problema, não dentro do produto, e nem mesmo dentro de sua própria mente... Você busca a solução dentro da mente do cliente potencial."

A partir da interpretação dos dados coletados inicia-se o trabalho de posicionamento da candidatura definindo-se os eixos principais da campanha, isto é, aquilo que será defendido como ponto programático principal e que deverá ser o diferencial, aquilo que distingue nosso candidato dos demais concorrentes. Define-se ainda o slogan, o jingle e o eixo central das peças eletrônicas e dos materiais gráficos.

Rick Ridder, consultor do Partido Democrata americano ressalta:

"A repetição exaustiva de quatro ou cinco palavras 'quentes' (slogan), como por exemplo, um adjetivo forte, em tudo que estiver relacionado ao candidato – discursos ou malas-diretas - levam o eleitor a, inconscientemente, identificá-lo com elas... O slogan deve conter o contraste que favoreça o candidato."

Tenha sempre como norte alguns princípios básicos que asseguram competitividade a seu candidato na disputa.

Todo candidato viável parte de um reduto e, portanto, como ponto de partida, deverão ser respondidas algumas perguntas:

Quantos votos eu tenho? Onde estão? Quem são eles (perfil)? Quantos votos necessito? Quantos votos me faltam? Quais os segmentos semelhantes? Qual o potencial de votos destes?

As ações de campanha deverão partir do núcleo de apoio visando sua consolidação e, num segundo momento irradiar ações em direção aos segmentos semelhantes.

Concentre-se em no máximo cinco pontos programáticos, pois quem atira para todo lado acaba por confundir o eleitor e não se distingue dos demais concorrentes.

Reforce os atributos positivos de seu candidato e minimize os negativos e, se possível transforme-os em qualidades. Reforce os atributos negativos de seu adversário e tenha sempre uma arma contra ele; julgue o momento oportuno e usá-la ou mesmo se deverá usá-la.

Concentre forças no seu principal inimigo; não desperdice energia e munição atirando para todo lado.

Se a polarização for inevitável procure atrair seu adversário para o campo que lhe seja mais desfavorável.

Procure fazer seu candidato e o tesoureiro da campanha entender que campanha cara é aquela que se perde e lembre-se que em eleição, como na guerra, não existe segundo colocado.