quarta-feira, 19 de junho de 2013

Redes de indignação e esperança

Ontem estive mais uma vez na manifestação, que desta vez fez concentração na Praça da Sé. Embora o eixo declarado do movimento seja pela revogação do aumento da passagem de ônibus, o que se vê lá é uma salada de reivindicações e de palavras de ordem que vão desde o cidadão entubado carregando em uma mão uma bolsa de urina e na outra um cartaz pedindo CIRURGIA JÁ, até membros do ministério público (o Fórum João Mendes é ao lado) carregando cartazes com montagens escrotas atacando a presidente Dilma por ter supostamente “criado” o bolsa bandido, o bolsa puta e por aí afora.
Seria muita ingenuidade acreditar que a direita golpista não iria buscar de alguma forma (de várias na verdade) capitalizar o movimento. Durante mais de 2 anos a reação procurou fazer decolar um movimento contra o governo federal não obtendo sucesso. Não conseguiam reunir em suas manifestações mais de uma centena de gatos pingados. Enquanto isso no eleitorado jovem crescia o descontentamento e a desilusão apática.
É a ʥƱɇʥƱɇ do presidencialismo de coalizão e a política de alianças desenhada pelo PT, meu caro. Hoje você olha e vê o partido de mãos dadas com seus principais inimigos históricos. Não há quem aguente!!!
Não víamos grandes manifestações de rua desde o Fora Collor, e não há como negar que o movimento a que se assiste é fruto de um fenômeno relativamente novo. Nasceu e tomou vulto a partir das redes sociais engajando uma juventude descontente e apartada dos canais tradicionais do fazer político (partidos, sindicatos, associações, agremiações estudantis, etc.). É a tal rede de indignação e esperança, abordada por Castells. Os partidos políticos (todos) e as esferas de poder representativo estão há muito apartados do cidadão comum.
Aqui em Sampa o Haddad perdeu o bonde. Deveria ter imediatamente revisto o aumento. Eu em seu lugar teria deixado o Alckmin sozinho em Paris e voltado para negociar com os manifestantes logo de início. Jantava o PSDB.
Mas não; preferiu posar de durão e fazer coro com a direita truculenta (juntamente com o Ministro da (in) justiça) que prontamente ofereceu tropas federais para ajudar o governo estadual. Estão prendendo manifestantes e enquadrando-os por "formação de quadrilha"!!!
Isso é criminalizar os movimentos sociais.
Só há uma coisa que me espanta mais do que o amadorismo do Haddad e sua equipe: o profissionalismo do Alckmin, que após a repressão violenta da manifestação de quarta-feira decidiu retirar o policiamento das ruas.
Embora a imensa maioria dos manifestantes seja pela ação pacífica, uma minoria ontem atacou a prefeitura, saqueou lojas, queimou o carro da TV Record e vários ônibus.
Já tem muita gente na rede pedindo uma ação mais enérgica, ou seja: REPRESSÃO, o que é lamentável.
Ontem sete capitais atenderam as reivindicações e abaixaram a tarifa. Aqui em Sampa o prefeito já fala em rever o valor de 3,20.
Todo esse desgaste poderia ter sido evitado. É inadmissível que um partido que nasceu das manifestações populares se porte desta maneira.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Entre o Projeto Coletivo e o Individualismo “Moral”: PT e PSDB na Propaganda Eleitoral Brasileira de 2010



A pesquisadora Marcia Dias (PUCRS) apresentou no 35º encontro anual da Anpocs paper que objetivou apreender e analisar a imagem partidária propagada pelas duas maiores legendas em disputa pela Presidência do Brasil em 2010: PT e PSDB. A pesquisa parte da base de dados coletada e analisada em trabalhos anteriores, que tiveram como objetivo investigar as diferentes estratégias através das quais os partidos políticos constroem a sua imagem nos programas do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE). Os objetivos específicos são: (1) incorporar a campanha de 2010 à base de dados já existente, tomando como ponto de partida a análise do grau de protagonismo desses partidos em suas propagandas eleitorais; (2) captar, classificar e analisar o discurso anti-partido da campanha do PSDB; (3) analisar o papel do presidente Lula na campanha de sua sucessora, Dilma Rousseff; (4) analisar a presença do símbolo do partido assim como o significado que o uso da cor vermelha tiveram na campanha do PT. Enfim, importa discutir em que medida os partidos são tratados como instituições essenciais para o jogo democrático: quando são relevantes, discutir a natureza dessa relevância; quando são descartáveis, discutir o tipo de argumento que sustenta sua insignificância.
Vejamos as conclusões da autora:
Este artigo teve como propósito elaborar um diagnóstico da imagem partidária na propaganda eleitoral na televisão durante as campanhas presidenciais brasileiras, a partir da redemocratização. Os objetivos que nortearam a pesquisa foram identificar a intensidade da visibilidade partidária, tanto visual quanto discursiva, a fim de classificar a relevância do papel de cada partido em seu “próprio espetáculo”, já que o HGPE é distribuído partidariamente, segundo o tamanho de cada bancada parlamentar.
primeiro conjunto de dados apresentados destaca a irrelevância da imagem partidária nas campanhas presidenciais de todos os partidos concorrentes. Este é o sintoma mais evidente da crescente profissionalização das campanhas presidenciais no Brasil, que possui como consequência, segundo a literatura especializada, o enfraquecimento do papel que os partidos exercem nas campanhas de seus candidatos. Já as campanhas televisivas para cargos Legislativos se destacaram pela intensidade da presença partidária junto a seus candidatos. Tal fenômeno explica-se, em primeiro lugar, pelo próprio sistema eleitoral brasileiro que computa tanto votos dados diretamente aos candidatos quanto votos de legenda para o cálculo do coeficiente partidário. Em segundo lugar, a utilização do tempo destinado às campanhas para o Legislativo na promoção da candidatura aos cargos Executivos do mesmo partido também contribuiu para o alto índice de partidarismo das referidas campanhas.
Em um ambiente tão diverso, optei por trabalhar neste artigo exclusivamente as campanhas presidenciais: a imagem partidária pode, portanto, ser analisada em um contexto de escassez, reduzindo a irrelevância da estratégia partidária e tornando os partidos comparáveis entre si.
Desde 1994, as eleições presidenciais no Brasil têm sido polarizadas entre dois partidos, os únicos que participaram das seis eleições ocorridas no período analisado: PT e PSDB. Entre 1989 e 1998, o PT ficou em segundo lugar nas disputas; entre 2002 e 2010, o PSDB terminou em segundo lugar. À exceção de 1989, as demais eleições foram ganhas por esses dois partidos: 1994 e 1998 pelo PSDB; 2002, 2006 e 2010 pelo PT. Dessa forma, configurou-se virtualmente um sistema bipartidário, visto que apenas dois partidos vêm apresentando vocação majoritária em âmbito nacional, o que justifica que a análise qualitativa tenha se concentrado nos mesmos.
Da análise quantitativa apreendeu-se as seguintes conclusões:
  • Dos partidos analisados, apenas o PT pode ser considerado “protagonista” de sua campanha eleitoral;
  • PDT e PPS, os outros dois partidos analisados por terem participado de três das seis campanhas, atuaram, em média, como “coadjuvantes”;
  • O PSDB atuou, em média, como “figurante” em suas campanhas, caracterizando-se como o partido que mais aposta na estratégia individualista;
Depois de contabilizadas as referências partidárias em cada campanha, tanto visuais quanto verbais, analisou-se o tipo de imagem que cada partido projetou: intensa, difusa ou indireta. Na imagem partidária projetada nas campanhas do PT e do PDT predominou o tipo intenso ou explícito; nas campanhas do PPS e do PSDB não foi possível perceber o predomínio de nenhum dos tipos de imagem, entretanto registrou-se o uso significativo das imagens difusa e indireta. O PSDB foi o único partido cuja imagem difusa foi mais frequentemente utilizada do que a imagem intensa, acentuando seu perfil personalista.
Em 2010 o perfil individualista das campanhas presidenciais do PSDB ganhou contornos ainda mais acentuados na adoção explícita do argumento anti-partidário. Tal argumento já vinha se delineando desde 1994, quando o PSDB articulou aliança com o Partido da Frente Liberal (PFL), atual Democratas (DEM), e venceu a eleição presidencial com Fernando Henrique Cardoso. Já nessa época a idéia da supremacia do interesse nacional sobre interesses setoriais já estava presente na campanha, justificando a aliança entre a social-democracia e o liberalismo, mas foi em 2006 que tal argumento começou a se transformar em sentimento anti-partido. A razão para a intensificação do argumento tecnocrático-individualista e para a rejeição à instituição partidária na campanha do PSDB tem uma evidente razão política: enfraquecer o adversário pelo que melhor o caracteriza, organização e disciplina partidárias. Como vimos acima, o PT é o partido brasileiro mais consistente, tanto em vínculos com o eleitorado quanto em controle sobre suas elites, o que se confirma por sua participação direta nas campanhas.
O governo que terminava em 2010 sob o comando do presidente Lula apresentava elevados índices de aprovação. O crescimento da economia, o aumento do número de empregos formais e o sucesso dos programas sociais do governo não contribuíram para a construção de uma campanha oposicionista com base em argumentos retrospectivos. Neste cenário, a campanha do PSDB investiu no prestígio do seu candidato, no argumento da superioridade moral e da capacidade individual para construir a unidade e articular o bem comum em substituição à política partidária, apresentada como algo desprezível e ameaçador.
que mais se destacou na campanha presidencial do PT em 2010 foi a intensa participação do Presidente Lula na defesa da candidatura daquela que seria sua sucessora. Sua influência na escolha do eleitor é considerada por muitos analistas peça-chave no sucesso da campanha do PT. Neste artigo, procurei analisar a natureza da participação de Lula na campanha e concluí que, contrariamente à lógica do senso comum, isso não significou a decadência do Partido dos Trabalhadores ou sua fragilidade na campanha, mas ao contrário, confirmou o sucesso eleitoral da estratégia partidária. Lula encarnou o PT ao dizer que o voto em Dilma Rousseff era equivalente ao voto nele mesmo, uma vez que eles eram parceiros em um mesmo projeto político, não declaradamente partidário em função do sentimento anti-partido difundido no eleitorado, mas equivalente.
A função do partido político em qualquer democracia é reunir pessoas com uma ideologia e um projeto em comum. Ao afirmar que a participação de Dilma em seu governo foi fundamental para o sucesso obtido e que a continuidade do mesmo estaria garantida com a sua eleição, Lula favoreceu a transferência da sua popularidade – não como líder carismático, porque isso não se transfere, mas como governante – à candidata de seu partido. A estratégia adotada na campanha ao investir na imagem do presidente Lula, portanto, não foi personalista, mas partidária, ao afirmar um projeto coletivo cujos símbolos eram a estrela, marca registrada do PT, e a cor vermelha.
A estrela vermelha é um símbolo universal de orientações político-ideológicas de esquerda, especialmente socialistas ou comunistas. É a estrela na boina de Che Guevara, símbolo universal do movimento revolucionário de esquerda, especialmente na América Latina. Não é preciso conhecimento teórico sobre o assunto: é de domínio público, pertence ao senso comum. Nesse sentido, a proeminência do símbolo partidário na campanha do PT, especialmente em 2010, é ainda mais eloquente do que sua própria sigla e sustenta um conteúdo ideológico ainda mais robusto. A estrela esteve presente em 54% das peças analisadas da campanha do PT de 2010. Apenas em termos comparativos, o tucano, símbolo do PSDB, estrela da campanha de 1989 (presente em um terço das peças analisadas), apareceu apenas duas vezes na campanha presidencial de 2010. Isso mostra que o PT não teve sua identidade fragilizada pela “moderada” experiência governamental. A estrela é certamente uma marca, porém, uma marca carregada de significados.
O vermelho é a cor predominante nas bandeiras da maioria dos partidos socialdemocratas, nacionalistas, socialistas e comunistas. Assim como a estrela, a cor vermelha possui um significado ideológico implícito. A campanha de 2010 foi uma das mais vermelhas do período analisado. O vermelho sempre esteve presente nas campanhas através das imagens de comícios, um ponto forte do PT. Neste ano, porém, esteve presente de forma ainda mais contundente, na medida em que foi “vestido” pela candidata. Em 100% dos programas televisivos veiculados, Dilma Rousseff aparece pelo menos uma vez vestida de vermelho. Isso demonstra um compromisso pessoal da candidata com os valores de esquerda e, sobretudo, um compromisso com o PT, partido ao qual se filiou tardiamente, depois de passar pelo PDT.
Em sua reta final, a campanha de 2010 transformou-se em um dos episódios mais lamentáveis da história política brasileira: trocou argumentos políticos por argumentos morais, misturou política e religião ferindo o princípio de laicidade do Estado Moderno, atacou instituições indispensáveis para a democracia como são os partidos políticos. A internet, que não foi objeto de análise neste artigo, tornou-se veículo para o ataque entre candidatos: conviveram neste ambiente discussões ideológicas, acusações morais, e mensagens eletrônicas difamatórias. Por isso mesmo, a internet torna-se progressivamente um campo profícuo para a investigação acadêmica dos processos eleitorais. Agenda indispensável para estudos futuros.
Acesse o artigo na íntegra:
http://www.anpocs.org.br/portal/35_encontro_gt/GT25/MarciaDias.pdf

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A campanha suja nas redes sociais digitais

A divulgação de mentiras para atingir adversários políticos não é novidade e era costumeiramente feita a partir daquilo que em política se convencionou chamar de rádio peão, um círculo de pessoas organizadas com o objetivo de espalhar boatos contra o adversário. Este expediente consagrou histórias como a do executivo bem arrumado que entra em um taxi no ponto próximo à sede do governo municipal e pede para tocar para o aeroporto. Durante o trajeto em conversa com o taxista o executivo se diz corretor de grandes áreas rurais, demonstra euforia e declara já ter ganhado o ano, pois acaba de vender a segunda fazenda de porteira fechada no Pantanal para o prefeito da cidade.

Chegando ao aeroporto o pretenso corretor dá uma gorda caixinha ao taxista que volta ao ponto e conta a história para os colegas que a espalham na cidade como um rastilho de pólvora, pois afinal como o safado teria arrumado tanto dinheiro?
Hoje com a disseminação das redes sociais digitais a tentativa de viralização de mentiras buscando atingir adversários tem sido comum, e algumas vezes acabam por enganar os menos atentos.

Neste final de semana um amigo absolutamente insuspeito, pois o conheço e sei de seu zelo pela verdade e justiça postou no facebook um vídeo onde um vereador agride uma repórter e pedia para que seu círculo de relacionamento compartilhasse, pois os meios de comunicação estavam abafando o caso. Segue o texto de apresentação do vídeo e o link para o mesmo:

VEJA O NÍVEL DO POLÍTICO BRASILEIRO
VEREADOR José Rainha do PT, pense em quem vai VOTAR, poderia ser SUA MÃE!
O Vereador José Rainha do PT - em cena covarde de um bandido, A reporter toma uma bofetada no rosto, ao cumprir o seu trabalho jornalístico. Esta cena embora distribuído á imprensa, ainda não foi publícado em nenhum jornal, rádio ou canal de televisão.
Vamos fazer a nossa parte divulgando, para que, todos tenham a oportunidade de saber o nível dos políticos brasileiros, principalmente do PT.
Isso só acontece por nossa culpa, esse bandido, foi eleito pelo povo.
Faça a sua parte; Divulgue !
http://www.youtube.com/watch?v=D1n8iF91Anc

Achei estranho, pois o Rainha não é e nunca foi vereador. Assisti ao vídeo e percebi que o agressor não parece nada com ele.
Fiz uma busca no google e não consegui encontrar nenhuma notícia sobre o fato, só retornavam links para vários canais no YouTube com a suposta agressão do vereador Rainha do PT.

Modifiquei a busca para “vereador agride repórter” e só assim pude chegar à verdade dos fatos. Na primeira opção aparecia um link para o portal G1 com a matéria “Vereador agride jornalista no interior de Mato Grosso” e link para o mesmo vídeo http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/06/vereador-agride-jornalista-no-interior-de-mato-grosso.html.

A agressão ocorreu no final de junho de 2010 e foi perpetrada pelo então vereador Lourivaldo Rodrigues de Moraes do DEM da cidade de Pontes e Lacerda (MT), conhecido como "Kirrarinha". Veja a matéria: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2010/06/vereador-agride-jornalista-no-interior-de-mato-grosso.html.

Nas redes dá-se a isso o nome de hoax ("embuste" numa tradução literal, ou farsa), histórias falsas recebidas por e-mail e sites de relacionamentos na Internet.
As imagens são fortes e causam revolta, e associadas à denúncia fantasiosa de que a imprensa não estaria noticiando faz do desatento uma vítima do embuste. Afinal porque a imprensa haveria de noticiar um fato que ocorreu a mais de um ano?

Está claro que a manipulação dos fatos teve o claro objetivo de desgastar a imagem do PT usando a boa fé daqueles que não compactuam com a agressão ali mostrada. Estejam atentos, pois embora a rede digital em certa medida rompa com o paradigma da comunicação eletrônica “deu na TV, portanto é verdade”, faz-se necessário estarmos atentos e vigilantes para não sermos ludibriados.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Egito 2011. Uma revolução em 140 caracteres




O título acima foi propositadamente forçado, pois se é fato que a renúncia de Hosni Mubarak, fruto da mobilização do povo egípcio não se constitua propriamente numa revolução no sentido clássico do termo, ficou patente a força da comunicação digital, em particular das redes sociais no processo de conscientização, envolvimento e, sobretudo, na mobilização para o desfecho que pôs fim a 30 anos de ditadura no país.

Fenômeno relativamente recente, as redes sociais digitais nasceram a partir do surgimento da chamada web 2.0. O Facebook, uma comunidade de relacionamento, foi fundado em 2004 por Mark Zucherberg, um ex-estudante de Harvard, com o objetivo de aglutinar os estudantes daquela instituição e rapidamente alastrou-se por outras universidades americanas se expandido pelo mundo. Já o Twitter foi criado em 2006 por Jack Dorsey e, como as outras inovações da web, nestes pouco mais de quatro anos de existência teve crescimento vertiginoso.

O Egito possui uma imensa parcela da população de jovens nascidos na ditadura de Mubarak que, devido à crise econômica por que passa o país, embora boa parte possua formação superior, não encontram espaço no mercado de trabalho, e é nesta parcela da população que as redes sociais passaram a fazer parte do cotidiano, tornando-se poderosa arma de mobilização por mudanças na sociedade egípcia marcada pelo desemprego, miséria e corrupção.

A morte de um engenheiro desempregado, em 4 de janeiro, que trabalhava como vendedor de frutas em um mercado na Tunísia, que após ter sua licença suspensa pela polícia local ateou fogo em suas roupas, em 17 de dezembro, foi o estopim de grandes manifestações naquele país. Após intensa repressão e centena de mortos o ditador tunisiano Zine el Abdine Ben Ali renunciou em 14 de janeiro.

A partir daí proliferam páginas nas redes virtuais em defesa das liberdades democráticas no mundo árabe e, como um rastilho de pólvora, manifestações eclodiram no Iêmen, Jordânia, Mauritânia, Argélia e Egito.

No Facebook páginas como a “Somos todos Khaled Said”, criada em homenagem a um jovem de Alexandria espancado até a morte por policiais que ele flagrou vendendo drogas atraiu milhares de adesões, passando a convocar atos de protestos e divulgar listas de advogados voluntários para atender os detidos.

Páginas da Frente Democrática, do Movimento Popular Democrático por Mudança, Jovens por Justiça e Liberdade e de vários outros movimentos de oposição passaram a convocar manifestantes.

Rapidamente a causa em defesa da democracia se alastrou e muitos jovens trocaram sua foto no perfil nas redes pela bandeira do Egito e passando a postar mensagens em apoio à mobilização. Um deles, Asmaa Mahfouz, um jovem de 25 anos, segundo artigo no blog de Adriana Carranca, postou em sua página pessoal que não ficaria em silêncio em face “dos abusos das forças de segurança e das políticas do governo que empobreceram a maioria dos egípcios”. “Eu vou para a Praça Tahrir no dia 25 de janeiro. Eu vou lutar por meus direitos e das pessoas torturadas até a morte pelas forças de segurança”. No dia 24 de janeiro, um dia antes das manifestações, a página inicial já tinha 300 mil integrantes – em comum, eles tinham o desejo por democracia, liberdade e justiça, escreve Adriana.
Na terça feira, 25 de janeiro, dia marcado para a manifestação o governo bloqueia o acesso ao Twitter e ao Facebook numa tentativa desesperada de tentar frear o movimento, mas já era tarde. Mais cerca de um milhão de pessoas tomam a Praça Tahrir exigindo a renúncia do ditador. O sucesso da mobilização surpreendeu até mesmo os mais otimistas: “Não imaginávamos que centenas de milhares de pessoas apareceriam no dia 25 de janeiro. Nós esperávamos 20 mil pessoas”, declarou Mohamed Awad, do Jovens por Justiça e Liberdade.

Em 27 de janeiro Mohamed El Baradei, Prêmio Nobel da Paz e ex-diretor a Agência Internacional e de Energia Atômica da ONU retorna ao país unindo-se aos manifestantes na Praça Tahrir. Na sexta feira, 28 de janeiro, numa tentativa desesperada e desastrosa o governo bloqueou todo o acesso à internet e às mensagens SMS. Se as redes sociais até então contribuíam de forma decisiva para a organização e mobilização contra a ditadura, sua ausência potencializou o espírito do povo egípcio.

Buscando furar o bloqueio de informação imposto pelas autoridades o Google disponibilizou um serviço que permitiu aos egípcios postar mensagens no Twitter por meio de ligações telefônicas. Três números telefônicos foram colocados à disposição para que fossem deixadas mensagens de voz, que eram convertidas automaticamente em arquivos de som e encaminhados ao Twitter com o tag #egypt.

Mesmo com a tomada das ruas por tanques do exército, a decretação do toque de recolher e o ataque de partidários do regime a soldo do ditador a população não se intimida e em 11 de fevereiro Mubarak renuncia pondo fim a 30 anos de ditadura no país.

Se por um lado é correto afirmar que o sucesso do movimento só foi possível graças à mobilização combativa da população, é também certo que tal mobilização só foi possível graças ao trabalho realizado nas redes sociais pela juventude egípcia.
Assim, as redes sociais mais uma vez deram prova de sua força, tanto pelo seu poder de mobilização como pela sua ausência, uma vez que o bloqueio arbitrário das redes pelo governo aguçou a sede de liberdade e justiça.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sandinista busca reeleição na Nicarágua



A edição de fevereiro da revista Campaigns & Elections em língua espanhola traz na página 9 dados sobre a pesquisa eleitoral realizada na Nicarágua no final do ano passado e divulgada pela imprensa daquele país em 14 de dezembro de 2010*.
Em seu último ano de mandato à frente do governo da Nicarágua, Daniel Ortega, da FSLN – Frente Sandinista de Libertação Nacional – amarga, segundo pesquisa realizada pela M&R Consultores no início de dezembro passado, índice 45% de aprovação em seu governo contra 28,7% de desaprovação. Os que nem aprovam nem desaprovam somavam 24,7% dos entrevistados.

Em agosto próximo ocorrerão eleições presidenciais e legislativas na Nicarágua e o atual presidente Daniel Ortega, amparado em um parecer da Suprema Côrte prepara-se para concorrer à reeleição. A Oposição, por sua dividida e sem um nome de peso que possa fazer frente ao sandinista nas urnas, apóia-se no artigo 147 da Constituição nicaragüense que veda a reeleição e restringe a no máximo dois os mandatos para cada político para tentar barrar a iniciativa de Ortega, alegando que caberia ao Congresso e não à Suprema Côrte a atribuição de mudar as regras do jogo eleitoral. Ortega que foi eleito para um mandato de 6 anos em 2007 está em seu segundo mandato tendo governado a Nicaragua entre 1984 e 1990.

No estudo realizado pela M&R o atual presidente apresentava 47,2% de intenção de voto contra 14,4% de Fabio Gadea, empresário do setor de comunicação e deputado no Parlacen – Parlamento Centro-americano –, e 7,4% do ex-presidente Arnoldo Alemán (1997/2002), do PLC – Partido Liberal Constitucionalista. Os indecisos somavam na data 31% dos entrevistados.

Segundo o estudo 49,6% do eleitorado declarou-se independente das tendências políticas que atuam no país e esta grande parcela tem sido o fiel da balança nas eleições. Analisando os dados do levantamento Raúl Obregón, representante da M&R avalia que atualmente cerca de 7% dos que se declaram independentes apóiam a candidatura do sandinista Ortega.
Embora ainda seja cedo para qualquer prognóstico os últimos números apresentados garante ao líder sandinista vitória já no primeiro turno.

http://noticias.terra.com/noticias/daniel_ortega_logra_47_2_de_intencion_de_votos_con_apoyo_de_independientes/act2630561

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A vaca e o brejo



Amanhã, terça-feira, 17 de agosto, com o início da veiculação da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, a campanha eleitoral entra numa nova fase.
Fruto da inação titubeante o candidato peessedebista deixou escapar por entre os dedos a folgada vantagem de 25 pontos que detinha há exatamente um ano. Recordem-se que em 19 de agosto de 2009, um ano atrás, Serra estava com 44% e Dilma com 19% pelo datafolha. Foram incontáveis erros. Desde a protelação da candidatura que deixou Dilma nadar de braçada até a desastrosa escolha do vice, passando pela eleição de um posicionamento da candidatura ambíguo (em cima do muro, como não poderia deixar de ser).

Falta ao candidato um discurso claro que o distinga. Não basta dizer que o “Brasil pode mais” como propalam em algumas das peças de campanha. Será necessário mostrar como e por que com Serra e não com Dilma. E não basta dizer; tem que provar, convencer.

Por sinal, a escolha da frase de efeito foi bastante infeliz, pois quem vota é o brasileiro, o José, a Maria, e não o Brasil. O discurso político para ser eficaz deve ter endereço certo, deve falar direto ao coração e à mente do eleitor, respeitando sua linguagem própria e seus problemas cotidianos.

Com o início da propaganda eleitoral na TV, sendo mantido o atual posicionamento das candidaturas o quadro que se avizinha é de vitória da candidata petista já no primeiro turno.

Se em campanha eleitoral não existe vencedor até que se abram as urnas, por outro lado a margem existente para correção de rumo e reversão do quadro é hoje pequena.
Se a vaca vai pro brejo, vai por um caminho escorregadio e em declive. Dar meia volta fica cada vez mais difícil.

Assim é pouco provável que o horário eleitoral gratuito produza mudanças substanciais, a menos que já na primeira semana o PSDB encontre o caminho seguro para convencer o eleitorado de que com Serra o amanhã será melhor.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Cidade Limpa


A qualidade de vida nas cidades depende do equilíbrio de inúmeros fatores, tais como a qualidade do ar e a organização do trânsito, a qualidade da água e a existência de saneamento básico e moradia digna, a preservação das áreas de mananciais, a existência de áreas verdes tais como parques e praças, a disponibilização de serviços públicos de qualidade nas áreas da saúde e educação, a poluição sonora e a poluição visual; além, é claro, da existência de postos de trabalho para que a população economicamente ativa possa prover o sustento de suas famílias com dignidade.

Ao poder público cabe a tarefa de equacionar os problemas e, – como reza o Estatuto das Cidades - em conjunto com a sociedade civil organizada, apontar soluções, propor à Câmara projetos de Lei e implementar ações que avancem em direção à construção da cidade que todos nós desejamos.
Desde 2007 discute-se na Câmara Municipal de Santo André o projeto de Lei denominado “Cidade Limpa”, que tem por objetivo disciplinar a veiculação de publicidade ao ar livre no município sem, contudo, se chegar a um consenso.

O temor é grande por parte do empresariado local, pois na cidade de São Paulo o caminho escolhido foi o menos aconselhável: a Lei Cidade Limpa ali baniu mídias tradicionais como Busdoor, Outdoor, Backlight, Painéis em empenas cegas (face dos edifícios onde não há janelas) e impôs severas restrições ao tamanho e a quantidade de luminosos e painéis nas fachadas dos estabelecimentos comerciais, dentre inúmeras outras restrições. Se, por um lado, o impacto das medidas tenha sido relativamente benéfico no que se refere ao aspecto visual da cidade, por outro as medidas causaram quebradeira geral nas empresas do setor, muitas delas com mais de 50 anos de atividade causando uma imensa onda de desemprego.

A solução adotada ali faz lembrar o famoso caso Camanducaia, nome de uma cidade mineira onde, em 1976, crianças e adolescentes moradores de rua da capital paulista, a pretexto de “limparem o centro” foram seqüestradas e abandonadas por agentes do extinto DEGRAN, à própria sorte. O absurdo, denunciado pelos meios de comunicação, não sensibilizou a justiça e o caso foi arquivado. A perplexidade do jornalista José Louzeiro frente à tamanha barbárie, que certamente faria corar Maquiavel, fez nascer uma das suas mais conhecidas obras: Pixote, Infância dos Mortos, de 1977, livro que deu origem ao filme Pixote, a lei do mais fraco, de Hector Babenco.

Convém lembrar aqui a importância para o empresariado local e regional das mídias externas como geradora de negócios e desenvolvimento para as cidades do grande ABC. Não está em jogo somente a estética das cidades ou o emprego daqueles que trabalham nas empresas que exploram as referidas mídias, mas o próprio desenvolvimento econômico global de nossa região, pois o pequeno e o médio empresariado dependem das mídias regionais para ser lembrado e fazer frente à concorrência com as grandes empresas que investem pesado na mídia eletrônica, ocupando o horário nobre das redes de TV aberta.

Na última segunda-feira, 24 de maio, por iniciativa do vereador Paulinho Serra reuniram-se na Câmara Municipal, em audiência pública representantes do executivo, vereadores, membros de empresas da região, OAB, ACISA e demais cidadãos, com o objetivo de reiniciarem a discussão sobre o tema.

Fizemos-nos presente e, com alívio, ouvimos dos representantes do executivo declarações uníssonas de que o projeto a ser encaminhado para discussão na Câmara pelo Prefeito não terá caráter restritivo, mas sim normativo, disciplinador.
Que a atividade carece de Leis que a discipline, coibindo abusos e imprimindo certa ordenação ao caos hoje vigente, todos concordam. O que não se pode conceber é, a pretexto de tornar a cidade “mais bonita e agradável” (conceitos por demais relativos), asfixiarmos o empreendedorismo do empresariado andreense.

É bom lembrar que a administração possui seus próprios outdoors para falar com a população, e atualmente veicula a Campanha do Agasalho em busdoors, por serem estas mídias que propiciam excelente cobertura e retorno a baixo custo.

Se da forma como está já é uma concorrência desigual, o que será das nossas empresas sem as mídias de rua? Digo aqui com todas as letras que baní-las será fazer o jogo das grandes corporações nacionais e multinacionais, lançando lenha no processo de concentração econômica.

O empresariado andreense precisa estar atento e vigilante para mobilizar-se na luta por seus legítimos interesses, se fazendo presente nas audiências públicas que se seguirão, debatendo e apontando os melhores caminhos para a construção da cidade que todos nós desejamos.

sábado, 5 de dezembro de 2009

As redes sociais digitais


As redes sociais digitais nasceram a partir do surgimento da chamada web 2.0. Este termo foi utilizado pela primeira vez em outubro de 2004 pelas empresas americana produtoras de conferências e feiras de tecnologia de informação, com a COMDEX, O’Reilly Media e MediaLive International como o nome de um ciclo de conferências sobre interatividade na web. Tim O’Reilly, inventor do termo define-o em seu blog :
"Web 2.0 é a mudança para uma internet como plataforma, e um entendimento das regras para obter sucesso nesta nova plataforma. Entre outras, a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem os efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas pessoas, aproveitando a inteligência coletiva"

A referência ao aproveitamento da inteligência coletiva O’Reilly reporta-se a uma das principais características da web 2.0 que é sua interface interativa, construída a partir de aplicativos abertos à participação de todos. Os códigos ou boa parte deles podem ser melhorados com a participação dos usuários. A esta característica deu-se o nome de Beta perpétuo, pois os aplicativos e plataformas não são mais relançados a cada ano, mas aprimorados constantemente com a participação dos usuários.

Os avanços nos aplicativos permitem, na chamada web 2.0, que qualquer usuário que não disponha de conhecimentos de programação, postar e receber conteúdos como textos, imagens, sons e vídeos abrindo espaço para que todos possam produzir e publicar conteúdos; os chamados Consumer-Generated Media (CGM) – mídia gerada pelo consumidor. Nascem os Blogs e as redes sociais de relacionamento digital, como o Facebook, Orkut, YouTube, MySpace, Digg, e tantas outras.

Este “boca-a-boca digital”, embora não seja uma interação face-a-face, tende a ter a mesma influência desta nas tomadas de decisão de compra e do voto por possuir maior credibilidade do que as mídias tradicionais.
O nome blog vem da junção das palavras Web e Log e são sites gratuitos que permitem a qualquer cidadão, em qualquer parte do mundo, escrever e publicar artigos ou “posts”. Permitem comentários de leitores casuais e mecanismos para, quem assim o desejar, seguir os posts e ser alertado sobre atualizações. Os blogs nasceram como diários pessoais on-line e transformaram-se em ferramentas de informação e, não raro pautam a mídia tradicional por serem ageis e, muitas vezes são usados como fonte por portais de notícias, TVs e jornais.

Os atentados de 11 de setembro contra as torres gêmeas são um exemplo clássico disso, pois enquanto a mídia tradicional buscava informações, muitos blogs postavam vídeos e fotos do acontecido que posteriormente foram veiculados na TV e nos portais de notícias. Muitos políticos na atualidade possuem blogs que funcionam como canais informais de comunicação com o eleitor.

O facebook é uma comunidade de relacionamento que foi lançada em fevereiro de 2004 por Mark Zucherberg, um ex-estudante de Harvard com o objetivo de aglutinar os estudantes daquela instituição e, rapidamente alastrou-se por outras universidades americanas. Hoje o site de relacionamento possui, segundo dados estatísticos da empresa , mais de 350 milhões de usuários. Segundo estudo realizado pela Sysomos , Michael Jackson é a página mais popular no Facebook, com 10 milhões de seguidores, vindo em segundo lugar a do ator Vin Diesel com 7 milhões e, em terceiro, a do presidente Barack Obama com 6,9 milhões.

No Chile o facebook é o segundo site de maior tráfego, só superado pelo site de busca Google Chile. Todos os candidatos a presidente do Chile nestas eleições possuem perfil no facebook e fazem uso do mesmo como canal de comunicação e mobilização do eleitorado.

O YouTube é um site que permite a seus usuários carregar e compartilhar gratuitamente vídeos na rede formando canais próprios que, como todas as redes sociais digitais, possibilitam seguir e ser seguido pelos internautas. Foi fundado em 2005 por Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim que trabalhavam juntos na Pay Pal, uma empresa de transferência de fundos e pagamentos por meio da web e celular. O sucesso do YouTube foi meteórico e, em 2006 foi eleito pela revista Time a melhor invenção do ano. Um ano depois de criado a Google comprou a empresa por nada menos que 1,65 bilhão de dólares. Muitos políticos fazem uso do YouTube postando seus vídeos, mas encontramos alí, sobretudo vídeos de crítica a eles. No Chile o canal de vídeo no YouTube dos “difamadores” faz críticas bem humoradas a todos os atuais candidatos a presidente.

O Twitter é um microblog gratuito que permite aos usuários cadastrados postarem textos de até 140 caracteres conhecidos como “tweets”. Os tweets são exibidos em tempo real nas páginas dos usuários que podem “seguir” ou serem seguidos pelos outros “twitteiros”. Foi criado em 2006 por Jack Dorsey e, como as outras inovações da web, teve crescimento vertiginoso atingindo e, embora a empresa não forneça dados sobre o número de assinantes a Sysomos analisou mais de 11,5 milhões de usuários para documentar o crescimento deste microblog e padrões de utilização .

O Twitter tem sido utilizado por muitos políticos alimentado pessoalmente ou por assessores. Embora procure ser utilizado como uma ferramenta para agregar valor e aproximar o eleitor do político, no Brasil recentemente assistiu-se um caso em que foi fator de desgaste. O protagonista foi o senador Mercadante que precipitadamente postou em seu microblog declaração anunciando que deixava a liderança do partido de forma irrevogável e, em seguida, após puxão de orelhas do presidente Lula voltou atrás revogando o irrevogável. Para que desgastes não ocorram os recursos da rede devem ser utilizados com a máxima cautela, pois atingem um grande número de pessoas em tempo real.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A Internet seria o novo príncipe eletrônico?


“O poder dos fluxos é mais importante que os fluxos do poder”
Manuel Castells


Vivemos em plena quarta revolução comunicativa e, da mesma forma que as outras três anteriores, a adoção de novas tecnologias e novos meios de comunicação possibilitam com que a mensagem chegue a um público cada vez maior em um espaço de tempo cada vez mais reduzido e com um custo cada vez menor. Além disso, são criadas possibilidades de novas práticas sociais e novas formas de interação do homem com a paisagem.
“Na época contemporânea, a humanidade estaria enfrentando uma ulterior revolução comunicativa, implementada pelas tecnologias digitais, que, numa concepção histórica, constituiria a quarta revolução e que, como as outras, estaria ocasionando importantes transformações no interior dos distintos aspectos do convívio humano”. (FELICE: 2008, p.22)
A velocidade espantosa das transformações ocorridas é sem precedentes na história e teve início na década de 60, em pleno auge da Guerra Fria. Visando interligar pontos estratégicos a uma rede descentralizada que não pudesse ser destruída por bombardeios, o Departamento de Defesa do governo americano cria a ARPANET.

Em pouco tempo várias Universidades americanas são conectadas à rede e passam a participar do projeto contribuindo para seu aprimoramento. No ano de 1972 a @ passa a ser utilizada para a troca de emails e, em 1974 a palavra Internet é utilizada pela primeira vez pelo cientista Vinton Cerf. No ano de 1983 o TCP/IP (Transmission Control Protocol/Internet Protocol), linguagem comum usada por todos os computadores conectados à rede é criada e em 1991, Tim Berners-Lee e Robert Cailliau criam a World Wide Web, sistema de hipertextos que funciona a partir de links clicáveis que levam a outros sites. Castells comenta em sua obra o surgimento e a apropriação da Web como instrumento de resistência política.
“Como se sabe, a Internet originou-se de um esquema ousado, imaginado na década de 1960 pelos guerreiros tecnológicos da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (a mítica DARPA) para impedir a tomada ou destruição do sistema norte-americano de comunicações pelos soviéticos, em caso de guerra nuclear. De certa forma foi o equivalente eletrônico das táticas maoístas de dispersão das forças de guerrilha, por um vasto território, para enfrentar o poder de um inimigo versátil e conhecedor do terreno.O resultado foi uma arquitetura de rede que, como queriam seus inventores, não pode ser controlada a partir de nenhum centro e é composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão contornando barreiras eletrônicas... Essa rede foi apropriada por indivíduos e grupos no mundo inteiro e com todos os tipos de objetivos, bem diferentes da extinta Guerra Fria. Na verdade, foi pela Internet que o subcomandante Marcos, líder dos zapatistas de Chiapas, comunicou-se com o mundo e com a mídia, do interior da floresta de Lacandon. E a internet teve papel instrumental no crescimento da seita chinesa Falun Gong, que desafiou o partido comunista da China em 1999, bem como na organização e na difusão do protesto contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle, em dezembro de 1999”. (CASTELLS: 2005, p. 44)
O advento da rede mundial de computadores rompe a passividade ao transformar o público espectador em produtor de conteúdos e a comunicação instantânea, em tempo agora corre não mais de um emissor para um receptor, passivo que assiste a tudo como a um espetáculo do qual faz parte como mera audiência. É a dissolução do paradigma no qual se assentavam os estudos desenvolvidos sobre a cultura de massas. O esquema emissor, mensagem, meio, receptor e ruído não mais fazem sentido no âmbito da comunicação digital.
“Em nível comunicativo, a passagem das tecnologias analógicas para aquelas digitais comporta a alteração do processo de repasse das informações, alterando a direção dos fluxos comunicativos e, sobretudo, a posição e a identidade dos sujeitos integrantes. Como foi descrito por diversos autores (Shannon-Weaver, Eco, e Fabbri), em níveis diferentes de complexidade, a forma analógica se exprime pelo repasse das informações procedente de um emissor em direção a um receptor através da emissão de um fluxo unilateral distribuído por canais e com as intervenções de ruídos. Ao contrário de tal modelo, a comunicação digital apresenta-se como um processo comunicativo em rede e interativo. Neste, a distinção entre emissor e receptor é substituída por uma interação de fluxos informativos entre o internauta e as redes, resultante de uma navegação única e individual que cria um rizomático processo comunicativo entre arquiteturas informativas (site, blog,comunidades virtuais etc.) conteúdos e pessoas”. (FELICE: 2008, p.44-45)
A utilização dos meios digitais disponíveis, tais como os notebooks, as webcam, a máquina fotográfica digital, os smartphones possibilitam a obtenção e produção de informações em tempo real, teoricamente em qualquer lugar.
No que se refere à participação política a rede digital rompe com o personalismo que caracteriza a comunicação eletrônica. A tendência hoje é a da formação de redes virtuais que, cada vez mais, aglutinem pessoas ao redor do mundo em torno de problemáticas específicas para a troca de experiências para buscar soluções. Cada vez mais a postura passiva que transferia a solução dos problemas da sociedade para o político-líder vai sendo substituída na rede pela participação consciente.
“As redes digitais instauram uma forma comunicativa feita de fluxos e de troca de informações “de todos para todos”. Em função da quantidade ilimitada de informações que poder ser veiculadas na rede, a temporalidade também é distinta, praticamente em tempo real, resultando instantâneas todas as formas de comunicação na web. Do ponto de vista político, com relação à forma analógica, mudam os meios utilizados, as formas e os conteúdos”. (FELICE: 2008, p.52-53)
Felice propõe a transposição do conceito de “obra aberta”, elaborado em 1962 por Umberto Eco para a sociedade mediada pelas tecnologias digitais, uma vez que estas se apresentam como inacabadas e abertas à participação colaborativa.
“O conceito de sociedade aberta pode ser definido, a partir deste ponto de vista, como um conceito projeto, isto é, um campo de possibilidade, um conceito em movimento que, com o tempo e as interações criadoras dos internautas, passa a assumir formas diversas. Trata-se de um deslocamento conceitual importante que, pondo ênfase na crise do antropocentrismo, define as sociabilidades e as culturas contemporâneas como realidades que nascem nas redes e nos fluxos informativos digitais e que, em seguida, tomam formas e espaços em localidades e topografias conectadas.
Abrem-se assim, as possibilidades de se pensar um novo conceito de virtualidade, e também outro conceito de social. A sociedade a código aberto, mais do que um conjunto de definições de conceitos, é também uma prática e uma forma de habitar, na qual construímos conteúdos e nos apropriamos do mundo através das tecnologias digitais. Portanto, além de um conceito em movimento, um campo de possibilidades, constitui-se num ecossistema no interior do qual habitam todos aqueles que criam idéias, pensamentos, culturas, tempo livre, prazer, arte, conteúdos “na” e “através” das redes. Código aberto, portanto, à contaminação criativa, à participação dos demais, portador de uma ética não mais autoritária, mas tecnologicamente experimental e socialmente não duradoura”. (FELICE: 2008, p.57-58)

As previsões catastróficas de Theodor Adorno e Max Horkheimer que vaticinavam os perigos da formação de ditaduras e governos totalitários, a partir da homogeneização e alienação das mentes, em conseqüência do advento do mass media, embora tenham sido, em certa medida, acertadas no que se refere ao século XX, onde imperava a comunicação analógica, perdem ressonância hoje na era da comunicação digital.

A chamada quarta revolução comunicativa parece destronar, um a um os príncipes, de Maquiavel as Ianni, pois o que está em jogo na rede não é a hegemonia, mas a liberdade de expressão e a busca coletiva de soluções de problemas globais pelos que habitam o mundo atópico das redes sociais digitais.

A comunicação política no século XXI

As revoluções comunicativas
"Technology is neither good nor bad; nor is it neutral.”
Primeira Lei de Melvin Kranzberg



Na história do desenvolvimento das sociedades humanas, a invenção do alfabeto ocorrida na Grécia por volta do ano 700 a.C., constitui-se num grande salto que possibilitou a construção do discurso conceitual, bases para o desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência. Embora a escrita pictórica já fosse utilizada pelos Sumérios desde 3.300 a.C., o alfabeto, em suas bases fonéticas, dá uma nova dimensão à escrita e, após mais de três mil anos de comunicação oral o homem passava a ter a possibilidade da comunicação cumulativa, baseada no conhecimento.

Avançando para a Idade média, na Europa Ocidental, os monastérios terão o domínio da cultura letrada e, por meio do trabalho exaustivo de copistas, trabalharão na preservação dos textos da antiguidade clássica e na produção de uma cultura eminentemente eclesiástica, voltada ao restritíssimo círculo letrado da época.

A difusão do alfabeto só se dará a partir da invenção dos tipos móveis de Gutenberg em 1450, consolidando a cultura letrada e a comunicação escrita a partir da difusão do livro e do jornal impresso.

Ao analisar a questão da passagem da cultura oral para a cultura escrita, Castells alerta para o fato de que o sistema audiovisual de símbolos e percepções, tão importante para a expressão plena da mente humana é relegado a um segundo plano, mas irá ressurgir no cenário da comunicação humana, se impondo no século XX.

“Ao estabelecer – implícita e explicitamente – uma hierarquia social entre a cultura alfabetizada e a expressão audiovisual, o preço pago pela prática humana do discurso escrito foi relegar o mundo dos sons e imagens aos bastidores das artes, que lidam com o domínio privado das emoções e com o mundo público da liturgia. Sem dúvida, a cultura audiovisual teve a sua revanche histórica no século XX, em primeiro lugar com o filme e o rádio, depois com a televisão, superando a influência da comunicação escrita nos corações e almas da maioria das pessoas.” (CASTELLS: 2005, p. 413)

O advento do cinema, no final do século XIX, das transmissões radiofônicas e da televisão, no início do século XX inaugura o período da chamada cultura de massas, marcada pela reprodução em série da produção cultural, largamente criticada pelos filósofos da chamada Escola de Frankfurt, da qual Theodor Adorno Adorno e Max Horkheimer são máximas expressões. Na obra “Dialética do esclarecimento” Adorno recusa o termo cultura de massa e introduz o conceito de Indústria cultural. Para eles o desenvolvimento da comunicação de massa teve um impacto fundamental sobre a natureza da cultura e da ideologia nas sociedades modernas. A cultura, na visão desses teóricos seria o instrumento que desenvolve e assegura formas de controle das concepções sociais e das ideologias estruturadas na sociedade capitalista. Denunciam acidamente o caráter de mercadoria da cultura, onde o consumidor é levado à ilusão de que é sujeito, mas, ele próprio, é transformado em mercadoria e vendido na forma de índices de audiência para o mercado publicitário.

Na época em que Adorno e Horkheimer formularam suas idéias o Rádio e o Cinema impunham-se como poderosos meios de comunicação de massa. Ao contrário de Walter Benjamin, também pertencente à Escola de Frankfurt, que via no cinema e na possibilidade da reprodutibilidade da obra de arte um fator de esperanças, Adorno nutre na obra uma visão catastrófica.

“...o que nos propusemos era, de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em estado verdadeiramente humano, está se afundando numa nova espécie de barbárie”. (ADORNO: 1991, p.11)

A comunicação na era da sociedade de massas, não faculta ao espectador nada além do que consumir passivamente as mensagens a ele direcionadas pelos meios de comunicação eletrônicos como verdades absolutas, inquestionáveis forjando o axioma “deu na TV, logo, é verdade”.

Na chamada sociedade de massas a política vive a era da “democracia eletrônica” e se espetaculariza, obedecendo pautas, conteúdos e estética dos programas de entretenimento, como ressalta Ianni.

“No âmbito da “democracia eletrônica”, dissolvem-se as fronteiras entre o público e o privado, o mercado e a cultura, o cidadão e o consumidor, o povo e a multidão. Aí o programa televisivo de debate e informação política tende a organizar-se nos moldes do programa de entretenimento... Esse é o clima no qual a política tem sido levada a inserir-se, como espetáculo semelhante a espetáculo dentro do espetáculo”. (IANNI: 2000, p. 153)

Assim, a passividade da sociedade de massas reflete no cotidiano da política e, ao cidadão, não resta nenhum outro papel senão o de votante. Tal como o consumidor, que ao ir às compras vive a ilusão de ser sujeito, já denunciada por Adorno, o eleitor vota e, como assinala Baudrillard, sente-se participante do processo político, transferindo ao outro a responsabilidade da solução dos problemas cotidianos, esvaziando a esfera pública de todo o seu significado.
“Não é por acaso que a publicidade, depois de ter veiculado durante muito tempo um ultimato implícito de tipo econômico, dizendo e repetindo no fundo incansavelmente: ‘compro, consumo, gozo’, repete hoje sob todas as formas: ‘voto, participo, estou presente, isto diz-me respeito’ – espelho de uma zombaria paradoxal, espelho da indiferença de todo o significado público” (BAUDRILLARD: 1981, p. 114)

Hoje, na sociedade moderna, somos a cada instante bombardeados por informações. Ouvimos o rádio ao dirigirmos no caótico trânsito das metrópoles, visualizamos outdoors e anúncios nas fachadas dos edifícios comerciais, assistimos aos noticiários na TV, lemos jornais, livros, revistas e navegamos na web em busca de informações. A profusão de informações que nos rodeiam nunca foi tão acintosamente generosa.

Crítico contundente da sociedade de consumo Baudrillard construiu uma série de teorias sobre os impactos da comunicação e das mídias na sociedade e na cultura contemporâneas. Para ele a saturação de informação na sociedade de consumo, o mundo virtual criado pela mídia, leva ao esvaziamento do real e à falência da comunicação. Este ponto de vista, nada animador, formulado no início da década de 90, é defendido por Baudrillard na obra “Simulacros e Simulações”.

“Em toda parte é suposto que a informação produz uma circulação acelerada do sentido, uma mais-valia de sentido homólogo à mais-valia econômica que provém da rotação acelerada do capital. A informação é dada como criadora de comunicação (...). Somos todos cúmplices deste mito. É o alfa e o ômega da nossa modernidade, sem o qual a credibilidade da nossa organização social se afundaria. Ora o fato é que ela se afunda, e por este mesmo motivo. Pois onde pensamos que a informação produz sentido, é o oposto que se verifica. (...) Assim a informação dissolve o sentido e dissolve o social numa espécie de nebulosa votada, não de todo a um aumento de inovação, mas, muito pelo contrário, à entropia total. Assim, os media são produtores não da socialização, mas do seu contrário, da implosão do social nas massas”. (BAIDRILLARD: 1991, p.104-106)

A obra “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel, escrita em 1513, inaugura o pensamento político moderno e ainda hoje é referência para aqueles que vivenciam a política. Dedicada ao príncipe Lourenço de Médici II, foi concebida pelo autor para servir de subsídio à implantação de uma política de unificação da Itália, tão sonhada por ele. Nela Maquiavel debate o que seriam os principados, relacionando os tipos existentes, como seriam conquistados, mantidos ou perdidos. Fortuna e virtù seriam os principais atributos do príncipe para a consecução dos objetivos do reino.

Em “O príncipe eletrônico”, Ianni parte das teorias de Maquiavel e do pensador italiano Antonio Gramsci sobre o partido político, visto como “intelectual coletivo”, para analisar as implicações decorrentes das transformações ocorridas com o avanço dos meios de comunicação de massa e da globalização. Comparando o príncipe de Maquiavel ao príncipe moderno de Gramsci, Ianni conclui que ambos são análogos no que se refere à capacidade de construir hegemonias.

“Tanto no que se refere a O Príncipe, de Maquiavel como o moderno príncipe, de Gramsci, estão em causa figuras e figurações fundamentais da política. Tudo o que pode ser específico da política neles se polariza, sintetiza ou galvaniza. Nesse sentido é que, em última instância, esses tipos ideais ou arquétipos estão referidos à capacidade de construir hegemonias, simultaneamente à organização, consolidação e desenvolvimento de soberanias”. (IANNI: 2000, p. 142.)

Lançando o olhar crítico para o final do século XX, tendo como referenciais as teorias de Maquiavel e Gramsci, Ianni aponta o envelhecimento dos “príncipes” construídos por aqueles e elabora sua teoria do príncipe eletrônico. Se para Maquiavel, o príncipe é uma pessoa, o líder ou condottiere, capaz de articular inteligentemente suas qualidades de atuação e liderança (virtù), e as condições sociopolíticas (fortuna), e para Gramsci o moderno príncipe é o partido político, para Ianni o príncipe eletrônico será personificado por aquilo que ele classifica como “a indústria de manipulação das consciências”, formada pela grande corporação de mídia e, em especial, a TV.

“O que singulariza a grande corporação da mídia é que ela realiza limpidamente a metamorfose do mercado em ideologia, do mercado em democracia, do consumismo em cidadania. Realiza limpidamente as principais implicações da indústria cultural, combinando a produção e a reprodução cultural com a produção e a reprodução do capital; e operando decisivamente na formação de “mentes” e “corações” em escala global.” (IANNI: 2000, p.152).

Embora em diversas passagens de seu texto Ianni inclua a internet dentre os meios de comunicação, acreditamos que, hoje, passados dez anos da produção do mesmo, os avanços acelerados no que se refere ao desenvolvimento dos chamados meios de comunicação digital impõem uma análise mais atenta daquilo que muitos autores denominam a quarta revolução comunicativa.

Castells nos dá a idéia exata da rapidez com que o meio de comunicação digital têm se disseminado por todo o mundo.

“A Internet tem tido um índice de penetração mais veloz do que qualquer outro meio de comunicação na história: nos Estados Unidos, o rádio demorou 30 anos para chegar a sessenta milhões de pessoas; a TV alcançou esse nível de difusão em 15 anos; a internet o fez em apenas três anos após a criação da teia mundial”. (CASTELLS: 2005, p. 439)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O atual sistema político e eleitoral do Chile


O sistema político do Chile

Desde os primeiros textos constitucionais produzidos no Chile, em 1811, pela Junta Provisória encabeçada por Mateo de Toro Y Zambrano, que estabelecia um governo formado por três membros e um congresso unicameral, as inúmeras Constituições e reformas que se sucederam foram transformando o sistema político.

Com a Constituição de 1828 o país passa a ser governado por um Presidente eleito em votação indireta e é firmada a independência entre os três poderes do Estado. O Poder Legislativo passa a ser bicameral que passam a nomear ministros da Suprema Corte de Justiça e elaborar a peça orçamentária do governo federal dentre outras atribuições.

Somente a partir da Constituição de 1925, aprovada por plebiscito nacional, durante o governo de Alessandri é que a escolha do presidente passa a ser por eleição direta e o mandato é ampliado de cinco para seis anos. O Estado é separado da Igreja e é garantida a liberdade de culto, consciência, são asseguradas as garantias individuais e é criado o Tribunal Qualificador de Eleições para organizar e fiscalizar pleitos.

No que se refere ao direito de voto às mulheres só foi conquistado em 1934 para as eleições municipais e em 1949 para as eleições federais.

Durante o governo de Eduardo Frei Montalva são introduzidas modificações importantes como a limitação de ordem social ao direito de propriedade, que abrirá uma brecha na Constituição para a nacionalização das reservas de cobre e da reforma agrária ensaiadas no governo Frei e aceleradas no governo Allende. Outras mudanças implementadas por Frei foram a extensão do direito de voto aos analfabetos e a diminuição da idade para votar de 21 para 18 anos.

Com o golpe militar, em 1973, rasgou-se a Constituição e o poder usurpado passou a ser exercido por meio de decretos-lei até o ano de 1980 quando uma nova Constituição preparada por uma comissão é aprovada pela junta de governo chefiada por Pinochet e submetida a um plebiscito. Promulgada em 21 de outubro, a nova Constituição continha 120 artigos permanentes e 29 transitórios e é a carta atualmente vigente no Chile.

Segundo o texto o Chile é uma República Democrática, cujo estado é unitário, mas dividido em 13 regiões, 51 províncias (estados) e 342 comunas (municípios).

As regiões são administradas por um Governo Regional, tendo à frente um Intendente, na condição de representante do Presidente da República, e pelo Conselho Regional, órgão resolutivo, normativo e fiscalizador.

Nas províncias a administração é feita pelo Governador que é subordinado ao Intendente e assessorado pelo Conselho Econômico e Social Provincial, presidido por ele. A Administração comunal está a cargo do Prefeito que é assessorado pelo Conselho, presidido por este, e que funciona como órgão resolutivo, normativo e fiscalizador e são eleitos pelo voto popular a cada quatro anos.

O Congresso Nacional é bicameral composto por 120 deputados e 48 senadores e tem como atribuição legislar e fiscalizar os atos do poder executivo e está sediada na cidade de Valparaíso.

Ao Poder Judiciário cabe a aplicação das Leis e seu órgão máximo é a Corte Suprema que além de zelar pela correta aplicação da legislação em vigor exerce o controle administrativo e disciplinar sobre os demais tribunais e juízes do país.

O sistema eleitoral

No Chile o voto é secreto e obrigatório para cidadãos maiores de 18 anos. Para as próximas eleições de dezembro o último censo eleitoral aponta a existência de 7,5 milhões de eleitores. A Constituição de 1925 estabeleceu o sistema de representação proporcional para alocação de cadeiras legislativas em 28 distritos plurinominais, o sistema mais utilizado na América Latina e Europa.

Na época da ditadura militar o país foi redividido em 60 distritos eleitorais e, para as eleições legislativas cada distrito tem direito a duas cadeiras na Câmara dos Deputados. Cada partido lança um nome para cada cadeira e, por isso, o sistema é conhecido como “binominal”, pois cada distrito elege dois deputados, ou dois senadores e, embora seja permitida a coligação de partidos para disputar as vagas é praticamente impossível a conquista das duas, uma vez que, para que isso ocorra, o partido ou coligação necessita ter o dobro de votos do partido ou coligação adversária.

Este mecanismo foi criado na ditadura militar para garantir a o acesso dos partidos de direita às cadeiras no Congresso e impedir o acesso dos candidatos da extrema-esquerda que, por conseqüência, são chamados de “esquerda extraparlamentar”. Por conta deste mecanismo o Partido Comunista Chileno embora consiga nas urnas votação em torno de 5 a 6% não possui nenhum representante no Congresso.

Para o cargo de presidente da República também é facultada a coligação de partidos e a escolha é pelo voto direto. Para ser eleito o candidato deve alcançar nas urnas a maioria simples dos votos válidos, ou seja, 50% mais um voto e, caso isso não ocorra, é realizado um segundo turno entre os dois candidatos mais votados no primeiro turno.

domingo, 29 de novembro de 2009

As eleições 2009 no Chile e o perfil dos concorrentes - IV

Jorge ArrateUma das imagens de abertura do site oficial de Arrate. Acesso 29-11-09 22h12

Jorge Félix Arrate Mac Niven nasceu em Santiago do Chile em 1941, é advogado, economista, escritor, professor universitário e político. No governo Allende foi nomeado presidente executivo da CODELCO, época em que as jazidas de cobre foram nacionalizadas. Entre os anos 1973 e 1987 esteve no exílio e foi secretário do Comitê de chilenos no exterior.

Com a redemocratização foi nomeado Ministro da Educação do governo Aylwin e Ministro do Trabalho e Previdência Social. Durante o governo Tagle foi Secretário de Governo e, no governo de Lagos, foi embaixador na Argentina.
Foi filiado e membro da direção do Partido Socialista desde 1963, mas em janeiro deste ano filiou-se ao Partido Comunista e é o candidato da Coligação Juntos Podemos Mais que agrupa os partidos da chamada esquerda extraparlamentar chilena.

As eleições 2009 no Chile e o perfil dos concorrentes - III

Eduardo FreiUma das imagens de abertura do site oficial de Frei, de paletó cinza à direita. Acesso 29-11-09 16h15

Eduardo Alfredo Juan Bernardo Frei Ruiz-Tagle nasceu em Santiago do Chile em 1942, é engenheiro civil formado pela Universidade do Chile, tendo cursado especialização na Itália em Administração e técnica de gestão. Frei é filiado à Democracia Cristã e foi o segundo presidente após a queda da ditadura, governando o Chile entre os anos 1994 e 2000.

Seu pai, Eduardo Frei Montalva, também democrata cristão, foi presidente entre 1964 e 1970, e foi um dos principais líderes de oposição ao governo Salvador Allende. Apoiou o golpe militar, mas num segundo momento liderou as forças contrárias ao general Augusto Pinochet, até sua morte em uma clínica privada onde foi operado. A justiça investiga se, como acreditam a família e muitos no Chile, a ditadura mandou envenenar o ex-presidente. Os exames realizados encontraram indícios de que isso tenha ocorrido. Frei é o candidato da Concertacion, frente de partidos que governa o país desde a redemocratização do país em 1990.

As eleições 2009 no Chile e o perfil dos concorrentes - II

Marco-Ominami
Uma das imagens de abertura do site oficial de Marco. Acesso 29-11-09 12h08

Marco Antonio Enríquez-Ominami nasceu em 1973 e é o mais jovem candidato do pleito. É filho de Miguel Enríquez Espinosa, fundador e secretario geral do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) assassinado pela ditadura chilena quando Marco tinha meses de vida. Sua mãe, Manuela Gumucio Rivas é filha do ex-senador fundador da Democracia Cristã, Rafael Agustín Gumucio Vives.

Aos cinco meses de idade Marco e toda sua família foram expulsos do país por um decreto militar e, no exílio na França, sua mãe casou-se com o senador Carlos Ominami. No ano de 2000, Marco agregou o sobrenome Ominame a seu nome.
Filosofo e cineasta, Marco é casado com a jornalista e apresentadora de TV, Karen Doggenweiler, com quem tem duas filhas.

É deputado tendo sido eleito em 2005 pelo Partido Socialista, do qual se desligou para apresentar sua candidatura à presidência pela Coligação Nova Maioria para o Chile, formadas por ecologistas, humanistas e outras forças progressistas.

As eleições 2009 no Chile e o perfil dos concorrentes - I

Sebastián Piñera

Uma das imagens de abertura do site oficial de Piñera. Acesso 29-11-09 11h01

Miguel Juan Sebastián Piñera Echenique nasceu em Santiago do Chile em 1 de dezembro de 1949. É empresário e político chileno membro do partido de centro-direita Renovación Nacional (RN), a facção mais liberal e moderada da direita chilena. Foi senador entre 1990 e 1998 e nas eleições de 2005 foi candidato à Presidência da República, tendo sido derrotado pela socialista Michelle Bachelet no segundo turno.

Piñera introduziu no Chile o sistema de cartões de crédito no início dos anos 1980, o primeiro de uma série de negócios que o levaria a acumular uma das maiores fortunas do país. Atualmente, é dono da cadeia de televisão Chilevisión, acionista majoritário das linhas aéreas LAN e sócio de numerosas empresas com um patrimônio estimado de 1,2 bilhão de dólares. No Brasil é controlador da ABSA, empresa de logística aérea sediada em Campinas, interior de São Paulo.

É casado, pai de quatro filhos e vem de uma família vinculada à Democracia Cristã. Formado pela Universidade Católica de Santiago e com mestrado em Harvard, Piñera trabalhou na década de 1970 no Banco Mundial e na Cepal.

A Coligação para a Mudança, da qual é o candidato, é composta por conservadores e liberais de centro-direita. Participam da coligação os partidos Alianza por Chile, Unión Demócrata Independiente (UDI), Renovación Nacional (RN), ChilePrimero (CH1) e os movimentos Norte Grande e o Humanista Cristão. (MHC).

O Governo de Michelle Bachelet

Bachelet em vista a Casa Branca


Michelle Bachelet, médica pediatra e epidemiologista, assumiu a presidência do Chile no dia 11 de março de 2006, convertendo-se na primeira mulher a assumir a presidência do país. Segundo informações da France Press, repercutidas pelo jornal A Folha de São Paulo, no dia de sua posse, acompanhada pela mãe e seus três filhos, Michelle teve seu primeiro contato direto com os cidadãos da capital Santiago em um emotivo discurso no Palácio de La Moneda, onde recordou seu pai e vários ex-presidentes, desde o conservador Jorge Alessandri ao socialista Salvador Allende, omitindo Pinochet e arrancando acalorados aplausos.

Filha do militar constitucionalista, Alberto Bachelet, preso em 73 e torturado, veio a falecer na prisão em 1974, a exatos 32 anos de sua posse, segundo as autoridades de ataque cardíaco. Bachelet recordou passagens do golpe militar quando também foi presa com sua mãe, a arqueóloga Ángela Jeria, pela DINA, polícia secreta da ditadura, em 1975, torturadas e forçadas a partir para o exílio. Ainda segundo a reportagem, os maiores aplausos foram para Salvador Allende, que se suicidou no La Moneda durante o golpe de 1973 e para Lagos, que deixava o governo com índices de popularidade na casa dos 61%, índices até então sem precedentes para um governante chileno em final de mandato só superado pela sua sucessora.

Ao assumir o governo montou um gabinete de 20 ministros repartindo cargos entre homens e mulheres igualmente, fato nunca ousado em nenhum governo. Seus primeiros meses de mandato são tumultuados, pois teve de enfrentar enormes manifestações estudantis em todo o país por uma reforma educacional e, logo a seguir modificações desastrosas iniciadas no governo Lagos no setor de transportes trouxe caos e descontentamento aos usuários do transporte público, a ponto dela ser retratada em charges pelos órgãos de comunicação impressa como um ônibus indo em direção a um penhasco.

Hoje, restando pouco mais de quatro meses para concluir seu mandato Bachelet ostenta índices de aprovação superior a 76% segundo apurado pelo instituto Adimark Gfk em setembro, graças a seu ousado programa de proteção social voltado às mulheres e crianças, á reforma previdenciária e aos bons frutos de sua política econômica que, apesar da crise econômica mundial coloca o Chile, ao lado do Brasil, em uma posição privilegiada, com a perspectiva de crescimento do PIB chileno da ordem de 5%. Em meio à crise o governo Bachelet criou um programa de ajuda em dinheiro no valor de 60 dólares para mais de dois milhões de chilenos em situação vulnerabilidade econômica. Para se ter uma idéia da abrangência deste programa convém ressaltar que o Chile tem hoje população total de cerca de 15 milhões de habitantes.

Como no Chile não há reeleição imediata concorrem este ano quatro candidatos; o engenheiro democrata cristão, Eduardo Frei Tagle pela Coligação Para a Democracia ou Concertacion, composta por democratas cristãos, sociais-democratas, radicais e socialistas; o economista e empresário Sebastián Piñera, pela Coligação Aliança pelo Chile, de centro-direita composta por conservadores e liberais; o filósofo e cineasta Marco Ominami pela Coligação Nova Maioria para o Chile, composta por ecologistas e humanistas, e Jorge Arrate pela Coligação Juntos Podemos Mais composta por comunistas e outras forças de esquerda.

O Governo de Ricardo Lagos (2000-2006)

Lagos com a faixa presidencial; ao fundo o presidente Lula

As manifestações em apoio ao ex-ditador Pinochet, preso em Londres, organizadas pelos partidos de direita fez emergir afigura do prefeito da comuna de Las Condes, Joaquín Lavín, como alternativa à candidatura do socialista Ricardo Lagos, um dos principais líderes da Concertacion na época do plebiscito. Lagos era Ministro de Obras Públicas do governo Frei e, nas eleições anteriores, já havia apresentado seu nome como pré-candidato à Presidência sem sucesso.

No primeiro turno das eleições presidenciais de 12 de dezembro de 1999, parcela significativa do eleitorado chileno, temeroso em ver se repetir a experiência do governo socialista de Allende, opta por descarregar votos em Lavín. Já outra parcela significativa do eleitorado temerosa em assistir a vitória da direita abandona a candidatura do democrata cristão Andrés Zaldivar e descarrega votos em Lagos que termina o primeiro turno na frente com margem estreita de cerca de 30 mil votos.

Em 16 de janeiro de 2000, Lagos é eleito com 51,3% dos votos graças à estratégia de reconquistar eleitores de centro, perdidos no primeiro turno para Lavín, organizada pela nova coordenadora de campanha e ex-ministra da Justiça de Frei, Soledad Alvear.

Ao assumir o governo em 11 de março de 2000, Lagos terá como desafio dar solução às altas taxas de desemprego, a recessão econômica por que passava o país e a crise no sistema de saúde. Buscando enfrentar a crise, sem sucesso, o governo adentra o ano de 2001 sob intensa pressão das oposições e dos meios de comunicação que denunciam o envolvimento de funcionários do Ministério de Obras Públicas em atos de corrupção.

O desgaste da Concertacion se torna patente com o resultado das eleições parlamentares realizadas no final de 2001, na qual a Aliança pelo Chile consegue agora conquistar grande número de cadeiras, produzindo um equilíbrio de forças no Congresso. Em meados de 2003 a economia chilena dá sinais de recuperação atingindo um crescimento do PIB da ordem de 4%, fruto da conclusão dos acordos comerciais firmado com a União Européia, Estados Unidos e Coréia do Sul, capitaneados pela ministra Soledad Alvear, incrementando novamente as exportações.

O ingresso do Chile no Conselho de Segurança das Nações Unidas à época em que o governo Bush manifestava a intenção de invadir militarmente o Irã causa o incidente das escutas telefônicas de funcionários do governo Lagos pela CIA que pressionava para que o Chile votasse favoravelmente à ação militar. O governo Lagos, em sintonia com a opinião pública chilena posiciona-se no Conselho contra a aventura militar americana.

No ano de 2004 a Bolívia volta a pressionar o Chile, por meio do então presidente Carlos Mesa, que exigia a devolução dos territórios anexados no final do século XIX e que possibilitaria ao país uma saída para o mar. A firmeza de posições de Lagos na defesa dos interesses nacionais e a recuperação econômica repercutem positivamente junto à opinião pública e a aprovação de seu governo volta a crescer atingindo índices em torno de 65%. Contribuem para a popularidade do governo a ação de duas ministras de Lagos, Soledad Alvear, Ministra das Relações Exteriores e Michelle Bachelet que num primeiro momento assume a pasta da Saúde, mas a seguir passa para o Ministério da Defesa Nacional, e sua atuação no ministério garantirá sua indicação como candidata oficial nas eleições presidenciais.

Ao mesmo tempo em que o governo Lagos desfruta de bons índices de aceitação a direita, cerrando fileiras na Aliança pelo Chile sofre pesado desgaste devido ao escândalo da descoberta de uma rede de pedofilia no Chile, conhecido como Caso Spiniak em que políticos da direita estavam envolvidos. O resultado das eleições municipais de 2004 reflete o quadro e a Concertacion obtém uma margem de 10% de vantagem sobre a Aliança pelo Chile na eleição dos Conselheiros.

Com a popularidade em alta, tanto Bachelet como Alvear venceriam Lavin facilmente, o que faz surgir o nome de Sebastián Piñera como candidato pela Renovação Nacional. A mudança no cenário eleitoral faz a candidatura Bachelet, franca favorita à vitória em primeiro turno perder terreno e, aos poucos, a soma dos votos de Lavin e Piñera ultrapassa os da candidata da Concertacion. Ao final do primeiro turno Bachelet obtém 45,95% contra 25,41% de Piñera, 23,22% de Lavín e 5,4% conseguidos pelo candidato da esquerda radical, Tomás Hirsch. No segundo turno Bachelet enfrenta Piñera, em 15 de janeiro de 2006 e consegue a vitória com 53,49% dos votos.